domingo, 22 de abril de 2018

Curiosidades - O Mar de Sines


Na última sexta-feira, assisti no MMI, integrado no Mar Film Festival, a um documentário extraordinário sobre o Mar de Sines – A resiliência das gentes do mar. Confesso que gostei. Relevava as «artes» de pesca tradicionais de que eu tinha conhecimento existirem em Sines. Sempre as observei do lado de terra, enquanto que, no documentário também me era dado observá-las, em acção, no interior da embarcação, o que completava a minha visão. Algumas delas:  caixote do aparelho de anzóis e a sua preparação, a rede do tresmalho, a rede de cerco, o alcatruz para o polvo, a penosa arte de mariscador, a descarga de peixe, sobre os antigos chapéus de lata, a venda em lota, no areal, a toneira para a lula, o chinchorro, os covos já de plástico, e outras, que não memorizei. Todas me eram familiares, tendo gostado de as ver ao vivo, bem como o amor ao mar, manifestado em entrevista, por quem as praticava.
Curioso é que, há uns três anos, recebera um pedido, por e-mail, de um realizador de Sines, Diogo Vilhena, para utilização do livro de que sou co-autora, Faina Maior – A Pescado Bacalhau nos Mares da Terra Nova, encontrado nas mãos de pessoa ainda entre nós, que se identificara numa fotografia, neste livro, que, em primeira edição (Quetzal, 1996) lhe havia sido oferecido por pessoa amiga. Claro que autorizei. Além de outras imagens que tive o prazer de rever no filme, esta era a principal, o dono do livro e protagonista na imagem.
-
Imagem 76, do espólio de Francisco Marques

O jovem moço que sustentava o gigantesco bacalhau é João da Silva Faria, nascido em 19 de Novembro de 1931, em Sines, moço, nas campanhas de 1951 1952, no lugre Labrador – assim testemunha a ficha do Grémio. Que coincidência e como o mundo é pequeno. Tudo batia certo.
Cerca de três dias, antes da exibição do documentário em Ílhavo, recebi o gentil convite do produtor António Campos, para estar presente, se possível, à sua exibição. E estive.
No final, entabulou-se entre nós uma agradável conversa sobre as artes tradicionais, que conhecera na minha estadia em Sines, nos anos sessenta, em pesquisa para a minha tese de licenciatura, O Vocabulário Marítimo Português e o Problema dos Mediterrarreísmos, que tiveram o prazer de folhear e levar. As imagens desse tempo manifestaram-se, para eles, uma raridade. Outro projecto teriam em vista, para as quais poderiam ser muito úteis. Possivelmente, a seu tempo, conversaremos, de novo. E assim foi o encontro de gentes de Sines, em Ílhavo.
- -
Botes em Sines. Anos 60
-
Sines. Lota no areal.
-
Ílhavo, 22 de Abril de 2018
-
Ana Maria Lopes
-

sexta-feira, 20 de abril de 2018

Duas velinhas para o «Marintimidades»

-
Colecção Capitão Marques da Silva
-
dez anos, andava em ensaios para criar um blogue, exactamente, quando estava em exposição no Museu Marítimo de Ílhavo (MMI), a Colecção Capitão Marques da Silva, na Sala de Exposições Temporárias, até 27 do corrente mês. Mesmo depois desse prazo, seria integrada, pelo menos o seu núcleo principal, na Sala dos Mares do referido Museu.
O protocolo do depósito desta colecção foi assinado no museu, a 5 desse mês de Abril, bem como lançado um pormenorizado Catálogo da mesma. Como co-autora e coordenadora de edição, não me compete a mim avaliá-lo. Direi apenas que, quem o adquirir, levará a exposição para casa, pois é ilustrado por 30 boas fotografias de Carlos Pelicas das 30 peças expostas.

Capa do Catálogo

Para mim, foi muito gratificante trabalhar com Marques da Silva, consolidando uma amizade já com alguns anos, aquando do seu empréstimo ao museu de algumas peças que figuraram na 1ª exposição Faina Maior, em 1992. Não há palavras que qualifiquem as suas mãos nem a sua paciência, que fazem dele um modelista pedagógico de primeira água. Só mesmo as peças falam por si.

Modelo do lugre-motor Creoula
- 
Curioso ainda o facto de termos em comum um gosto forte pela Faina Maior e pelas embarcações tradicionais portuguesas.

Louvável, a todos os níveis, o seu acto de depósito da maravilhosa Colecção, dando possibilidade a todos os visitantes do Museu de a observarem de perto.

O barco moliceiro

E assim foi criado o Marintimidades, que hoje festeja 10 anos, para falar das coisas do mar, da ria, de embarcações, de artes, de museologia marítima e de eventos que surjam dentro desta área, publicitando-os, e sobre eles detendo um olhar…

Uma recordação desse dia… e nestes dez anos, muita água passou por baixo das pontes…
 


 Ílhavo, 20 de Abril de 2018
-
Ana Maria Lopes
-

segunda-feira, 16 de abril de 2018

Homens do Mar - Alexandre Simões Ré - 45

-
Cap. Alexandre Simões Ré

À laia de introito:

Circula por aí, entre a família Ré, a foto seguinte extremamente curiosa, que ainda não tinha conseguido.
Pessoa amiga, bisneta de um dos fotografados, ofereceu-ma, há dias bem como a sua identificação. Preciosa!!!Um rico folar de Páscoa!...
Trata-se de uma foto de estúdio, creio, à época, do jovem curso de pilotagem, em 1900.
O trajar dos rapazes seduziu-me – fatinho de calça, paletó e colete, camisa de colarinhos gomados e levantados, gravata, botim ou sapato fino, lencinho no bolso do casaco, à janota.
A maioria, de bigodinho a preceito, todos de cabeça coberta por chapéu de feltro escuro ou panamá, de palhinha, tipo galã. Que pose!... Fazendo parte de um curso de pilotagem de 1900, em Lisboa, viriam a ser futuros homens do mar – pilotos, imediatos e, mais tarde, capitães. Imagino…
Por grande curiosidade, estão todos identificados, bem como denominada a terra de onde são provenientes.
Dos dezassete fotografados, 9 são naturais de Ílhavo e dois, de Aveiro.
Constituem um belo quadro do nosso passado ílhavo! Mais uma prova de que Ílhavo forneceu grande quantidade de oficiais para o mar!
Dos de Ílhavo, em terceiro plano, chamo a atenção para o primeiro à nossa direita, também todo ajanotado – Alexandre Simões Ré (patriarca da família Ré, nascido em 1880), – o biografado de hoje.

Curso de pilotagem de 1900

Ora a origem do nosso Alexandre Ré começa logo com uma curiosidade – ele não é natural de Ílhavo, mas sim de Lisboa, freguesia de Belém, filho de João Simões Ré Júnior e de Ana Maria S. José, nascido a 19 de Agosto de 1880. Lembrei-me imediatamente dos ílhavos que iam para Lisboa, por esses tempos, e logo namoriscavam, acabando por casar com alguma das bonitas e elegantes varinas da capital. Teria sido um desses casos? Nada que não pudesse ter acontecido
Do casamento, em Ílhavo, a 22 de Fevereiro de 1902, com Maria Nunes Vidal, conhecida pela avó Ramízia, nasceu uma prole de oito irmãos – seis pequenos (João, José, Armindo, Manuel, Armando e Alexandre) e duas pequenas, Célia e Maria. Dos seis varões, quatro foram oficiais da Marinha Mercante e outro, Alexandre, foi também marítimo – motorista, tendo exercido funções de oficial maquinista. Depois de já me ter ocupado dos capitães Armindo e João Ré e do Sr. Alexandre Vidal Simões, nasceu-me uma vontade gradual de escodrilhar o percurso marítimo do velho Alexandre Ré, como, por vezes, era apelidado, que deveria, pelo menos, nos primeiros tempos, ter sido difícil e variado.
Era portador da cédula marítima nº 6845, passada na Capitania do Porto de Lisboa, em 6 de Maio de 1916, tendo exercido a profissão de pescador do bacalhau desde 1907.
Claro, tive de aceitar um percurso com algumas lacunas, que não consegui ultrapassar, mas também dei de caras com uma panóplia de lugres, cujo nome não me era nada familiar.
Surgiu-me pela primeira vez o seu nome como capitão, na escuna Loanda (1908-1917), no ano de 1912, pertença da Sociedade Africana da Pesca do Bacalhau, com praça na Figueira da Foz.
Nos anos de 1913 e 14, «saltou» para capitão do lugre-patacho Mindello (1902 a 1921), da mesma empresa armadora e da mesma praça, de que, curiosamente, obtive, há uns anos, um postal, num alfarrabista, em Vila do Conde.

Lugre-patacho, ao centro, na Figueira da Foz, num postal datado de 1905

Entre 1915 e 19, fiz os impossíveis, mas perdi-lhe o rasto. Tempos de guerra…, quem sabe?, mas socorrendo-me do livro Sete Séculos no Mar (XIV a XX), A Construção de Embarcações, de José Eduardo de Sousa Felgueiras, Volume III, pp. 224 a 226, edição do Centro Marítimo de Esposende, Fórum Esposendense, 2010, de que respigo umas frases-chave, relativas ao nosso capitão, encontrei-lhe o rasto.
Tenho, pois, de me reportar, ao lugre (?) Fãozense, construído para a Sociedade Marítima Progresso, Lda., de Fão, nos estaleiros locais por Domingos Carlos Ferreira & Filho, entre os anos 1919 e 1920. O primeiro capitão deste navio foi Alexandre Simões Ré, de Ílhavo, de quem a imprensa local dá conta da sua estadia em Fão, para acompanhar a construção.
Em 1921, o navio foi vendido à Parceria de Pesca Patriota, do Porto, que lhe deu o nome de Patriota 2º.

O Fãozense, já baptizado de Patriota 2º, aparelhado como lugre.

Entre 1921 e 1924 (inclusive), foi comandado por Alexandre Simões Ré. E mais uma vez se unem os chicotes. O jornal O Ilhavense de 21 de Maio de 1922 e o de 13 de Maio de 1923, assim o confirmam. Na viagem de 1922 (e possivelmente, também em 23), foi seu piloto, o filho, João Simões Ré.
Na safra de 1925, surge como capitão do lugre Paços de Brandão, também da praça do Porto. O Paços de Brandão era um lugre de madeira construído em 1920 em Marystom, Terra Nova, que veio a ser reconstruído em 1923 em Vila Nova de Gaia, para participar na campanha de 1924, sob a propriedade da firma Veloso, Pinheiro & Cª., Lda.

O lugre Paços de Brandão

E na safra de 1926? O nosso jornal de 9 de Maio de 1926, dá-o como capitão do lugre Silva Rios, sendo seu piloto, o filho José Simões Ré. Faltava-me mais este lugre. E não ficaremos por aqui.
Recorrendo a blogues credíveis, que no final citarei, o lugre Silva Rios foi o ex-Rio Minho, construído para o armador de Caminha, Francisco Odorico Dantas Carneiro, pelo construtor, também de Caminha, Manuel F. Rodrigues, em 1921. No final da década de 20, o navio foi vendido a Silva Rios, Lda., do Porto, que lhe alterou o registo para o Porto, lhe fez uma reconstrução e lhe mudou o nome para Silva Rios.
E as safras de 1927 e 28? Às vezes, não se encontram duas pecinhas de um puzzle, mas não há que desanimar. Alexandre Ré reapareceu.
Na safra de 1929, foi capitão do lugre de madeira Maria Carlota – o ex- Estrela I construído em 1918, em Dayspring, Canadá. Tomou o nome de Maria Carlota na campanha de 1927, propriedade de Nuno Freire Temudo de Viana do Castelo.
E de lugre em lugre, lá foi andando, num vaivém, de barra a barra.
-
Lugre Maria Carlota. Foto de autor desconhecido.
-
Segundo o jornal Beira-Mar de 27 de Abril de 1930, Alexandre Ré surge como capitão do lugre Adamastor, da praça do Porto, levando o seu filho José Ré, como piloto.O Adamastor, longe de ser o Adamastor cantado por Camões, foi um lugre construído em 1916, em Vila do Conde, por Jeremias Martins Novais, para o armador Estêvão Soares, do Porto, tendo sido vendido, em inícios de 1918, à Empreza de Navegação Portugal e Américas, Lda., também do Porto. Ao longo da sua existência, sofreu algumas transformações a bordo e novas classificações, tendo o armador, a partir de 1922, mudado a designação comercial para Empreza de Pesca e Navegação Portugal e Américas, Lda. Segundo o jornal Beira-Mar de 26 de Abril de 1931, Alexandre Ré surge como capitão do lugre América, da praça do Porto, levando o seu filho Armindo, como piloto. Este lugre de madeira, também sob encomenda de Francisco E. Soares, armador do Porto, saiu dos estaleiros de Vila do Conde, das mãos do construtor Jeremias Martins Novais, em 1915.
Em anos de crise, no ano de 1930 revelou um resultado catastrófico, tendo no ano de 1931, o produto da pesca melhorado consideravelmente, ao que se juntou o rendimento do óleo de fígado de bacalhau. O lugre foi colocado à venda em 1934, tendo sido adquirido pela Companhia de Pesca Transatlântica, Lda., igualmente com sede no Porto. O novo proprietário renovou a matrícula na capitania do Douro, rebaptizando-o com o nome de Infante, continuando a integrar a frota de navios da pesca longínqua.
E o «nosso» Alexandre Ré, de quem nos ocupamos, presentemente?
Nos anos de 1932 a 36, por lacunas de informação, e, provavelmente, por tempos de crise, perdi-lhe a esteira, mas, na safra de 1937, encontrei-o de novo, como capitão do velhinho Argus, pertença da PGP., com o filho Armindo, como piloto. Jamais as suas vidas profissionais se separaram. Na safra seguinte, de 1938, os papéis inverteram-se, tendo matriculado como capitão, o Armindo Ré, que, desta vez, levou como piloto, o seu pai, Alexandre. E a partir daqui, foi sempre assim.
E passemos ao lugre-motor, de aço, Creoula, de 1937, também pertença da PGP., o actual NTM, que é bem conhecido de todos nós.
Nas campanhas de 1939 e 40, Alexandre Ré foi o piloto, Armindo Ré o imediato, sob o comando de João Pereira Ramalheira (o Vitorino).
-
À nossa direita, Alexandre Ré, no Creoula, em 39/40

Nas campanhas de 1941 a 43, seguiu-se o Argus, o novo/velho Argus, de aço, construído na Holanda, em 1939, imortalizado pela obra A Campanha do Argus de Alan Villiers. O trio da oficialidade manteve-se, já que em equipa ganhadora não se mexe.
Mas o lugre-patacho Gazela Primeiro meteu-se de permeio e tendo-se tornado Armindo Ré capitão deste mítico navio, o pai exerceu o cargo de imediato.
E assim foi entre as safras de 1944 a 48, inclusive. 
Constava tratar-se de pessoa sarcástica, de língua afiada, cáustico, má língua e com espírito de humor. Mas, toda a companha nutria por ele um certo respeito e carinho e tratava-o também por capitão pelo hábito de tantos anos que comandou. Já com avançada idade, embarcado no Gazela I em que, depois de tantos anos de capitão, exercia agora as funções de imediato sob o comando do filho Armindo, já descontraído e sem grandes preocupações, certo dia, enquanto os botes andavam fora a pescar, desceu do convés ao rancho e, cheio de frio dirige-se ao cozinheiro: – Eh Gestas, está um frio levado dum raio, arranjas-me aí uma canequinha de café, pá? Ao que o cozinheiro prontamente respondeu: – É para já, sô capitão. E o Gestas trata de encher uma caneca de café, da cafeteira sempre pronta em cima do fogão, e satisfez assim a vontade do velho Alexandre que, depois de se aquecer interiormente e exultar a boa qualidade do café, agradece e acrescenta: –  Ah rapaz, não há café como o teu. E sobe a escada de volta ao convés onde encontra o contramestre e comenta com ar de maldisposto: – Eh contramestre, o Gestas deu-me agora uma zurrapa dum café que até estou agoniado...
Estamos perante um caso de doze anos de fidelidade à Parceria Geral de Pescarias, de filho e pai, até ao momento em que Armindo Ré se estreou como capitão do navio-motor Vaz, da empresa Brites, Vaz & Irmãos, Lda., da praça de Aveiro. De saco de lona às costas, numa «nova emposta», lá ficaram mais perto de casa, pai e filho.
Durante as safras de 1949 a 51, Alexandre Ré aí foi imediato do filho Armindo, que, no seu navio, prolongou a carreira até 1969.
Aposentou-se em Novembro de 1957, depois de cerca de 50 anos de mar, servindo uma panóplia de veleiros de madeira e de aço, tão diversificados, de praças desde o Porto a Lisboa, passando por Figueira da Foz e Aveiro, onde finalizou o seu labor de mar, sem esquecer uma estadia em Fão para acompanhar uma referida construção.
Ainda lhe restaram alguns anos, para saborear a sua reforma, entre a família numerosa, que era.
-
Saboreando o solzinho, no seu jardim.

Chamava malagueta à bengalita, com que se equilibrava na última etapa da vida. E não só, outros objectos da vida comum eram chamados como se de objectos marítimos se tratasse – de tal modo a vida marítima lhe estava interiorizada.
Deixou-nos a 2 de Fevereiro de 1967, vítima de uma trombose, com 86 anos.
-
Ílhavo, 12 de Março de 2018
-
NB. Consultados os blogues Navios e Navegadores, Navios à Vista e Piloto Prático do Douro e Leixões.
-
Fotos – Amavelmente cedidas pela família e arquivo pessoal
-
Ana Maria Lopes
-

segunda-feira, 2 de abril de 2018

Homens do Mar - Manuel da Silva - 44

-
Cap. Manuel da Silva

Entre as pessoas com quem me socializo, ia perguntando quem era ou se se lembravam de um capitão Manuel da Silva. Acrescentava eu – que tinha morado na chamada Avenida dos Capitães, em casa que havia fixado bem, que tinha trabalhado em Testa & Cunhas e que tinha perecido, relativamente novo, num acidente de motorizada. Há meses que trazia esta, fisgada, mas também parece que algo me entorpecia para ir bater à porta, a ver se havia descendentes, ou, se porventura, a casa tinha sido vendida.
E assim ia eu, passando vezes e vezes na Avenida, sem parar.
Mas, há sempre um mas… um dia.
Em dia de almoço do XIX Capítulo da Confraria Gastronómica do Bacalhau, dia 20 de Janeiro, parei o carro junto ao Hotel de Ílhavo. Ali, tive um «baque», atravessei a rua, toquei no nº 30 e eis que fui atendida por uma senhora simpática, agradável, muito arranjada e equilibrada pela sua bengalinha. Não nos conhecendo de lado nenhum, exclamei – gente de paz! Apresentei-me ou melhor, expliquei ao que vinha e sabendo tantas informações acertadas, só podia ser gente de paz.
Chama-se Ermelinda Moreira, de vetustos, mas conservados 92 anos e era nora do Capitão Manuel da Silva, viúva do filho mais velho, Manuel. A meu pedido cedeu-me o nº de telefone fixo e fiquei de aparecer uma tarde próxima, com pré-aviso, para que calmamente me contasse tudo quanto sabia do sogro, de quem eu, há tanto tempo, procurava descendentes e informações. Umas, eu tinha-as como certas. E eram. Por pouco, por muito pouco, ou teria sido por muito, «ganhei o dia». O «bacalhau» estava do meu lado.
Decorridos uns dias, poucos, e depois de me informar o máximo possível, em jornais de outros tempos e arquivos marítimos, lá marquei a tardada. Cordialmente recebida e com um chazinho de permeio, para descanso e afago da garganta, palrámos quanto sabíamos, ajudadas por um álbum fotográfico familiar de fotos muito pequeninas, próprias da época, mas sempre elucidativas.
Acerca da morte do senhor, estávamos bem lembradas de que tinha sido por acidente fatal, num daqueles malditos «cuciolos» (motorizadas), assim lhes chamavam ao tempo.
Consultadas as listas de tripulação, deixara o navio-motor Inácio Cunha na safra de 1960 e já não aparecia inscrito na tripulação de 1961. Tinha sido sem dó nem piedade.
Simpaticamente, gabei-lhe a decoração da sua sala, com muita prataria, num misto do nobre metal e peças da Vista Alegre. Sem dúvida, estávamos em Ílhavo. E curioso, ao perguntar-lhe por fotos identificadoras do sogro, respondeu-me – não será fácil. Mas logo me ripostou: olhe, tem ali, um prato do meu sogro, com o seu retrato pintado, por um irmão da avó, um tio Carlos, que tinha negócios de porcelana, no Brasil. Estávamos perante um quadro curioso, na nossa terra, em que dois dos destinos frequentes dos jovens de Ílhavo, nessa época, eram a fábrica da Vista Alegre ou o mar, ou ambos, na sequência um do outro.
Pessoa do mar com quem muito convivi, em determinada altura da vida, lembrava-me, frequentemente, dito curioso da mãe – Ó filho, não vais tirar o curso de piloto? Então queres ir para a fábrica da VA e com tantos anos…, ainda andares a pintar asas a penicos? Vai para o mar! E o dito filho assim fez.
Manuel da Silva, de alcunha Lavado, nasceu em Ílhavo a 21 de Agosto de 1898, na Chousa Velha, sendo filho de Francisco da Silva e de Maria Emília da Conceição, conhecida por Maria Emília Lavada (daí a alcunha por que era conhecido o capitão).
Do casamento em 21 de Agosto de 1923 com Maria da Silva Branca, nasceram dois filhos – o Manuel, marido da D. Ermelinda, que, amavelmente me recebeu, e o Carlos, ambos funcionários da Vista Alegre, que, por lá fizeram a sua vida.
Manuel da Silva era portador da cédula marítima nº 10407, passada na Capitania do Porto de Aveiro, em 19 de Fevereiro de 1913. Na ficha do Grémio, apenas aparece como piloto, em 1944, sob o comando de José Simões Ré, do lugre-motor de madeira Navegante II, construído em Fão em 1912, por António Dias dos Santos, propriedade a partir de 1934 da firma Ribaus & Vilarinho, Lda., da praça de Aveiro. Piloto muito tarde. Porquê? Pôs-se-me essa questão e não tive quem me esclarecesse tanto quanto eu queria. Mas, a própria ficha do Grémio referia que, tendo cédula marítima desde 1913, deixou de exercer a profissão, o que sua nora confirmou, por crise da navegação, ocupando-se em comércio próprio.
Numa segunda visita à casa que fora do capitão, fui amavelmente recebida também pela outra nora, D. Maria Ângela, pela neta mais velha, a Elisabeth, e pelo neto João Nelson, que havia seguido a mesma profissão do avô, pela admiração profunda que tinha por ele. Depois de muito activarem os neurónios, as duas senhoras referiram-me que o sogro tinha sofrido um naufrágio, uma vez, em navio, para elas, desconhecido, em viagens de cabotagem (?), com tal perigo que o levou a afastar-se da vida do mar. Além disso, confirmaram-me que o casal tinha montado um negócio de mercearia, na Chousa Velha, casa onde habitavam, em frente à antiga escola primária local.
Manuel da Silva, passou, então, a ser, funcionário, durante alguns anos na fábrica da Vista Alegre, como chefe das pilhas de lenha para os fornos, que chegavam do norte, pela ria, em mercantéis. Após o horário fabriqueiro, ajudava a mulher na mercearia. Logo recordámos a venda de produtos domésticos habituais – arroz, açúcar, farinha e quejandos – em sacos improvisados de papel pardo, ao quilo, rebuçados e vinho, ao litro, em garrafa ou garrafão. Mas, certamente, não era a vida que Manuel da Silva desejava para ele – o mar chamava-o...
E uma possível explicação, para esta mudança de vida??? Tendo ido, um dia, à Vista Alegre, um dos Vilarinhos, com quem se dava, opinou-lhe – deixa a fábrica, isto não é lugar para ti, vai mas é para o mar, tendo-lhe facilitado o tal lugar de piloto, no Navegante II, em 1944, que já referimos.
Imagino que tenha unido os chicotes.
Nos anos de 1945 e 46, passou a imediato do conhecido, belo, mas desditoso Hortense, lugre-motor de madeira, construído para a Parceria Geral de Pescarias, por Manuel Maria Bolais Mónica, em 1930. Foi seu capitão, Augusto dos Santos Labrincha, de alcunha Laruncho, também de Ílhavo.

A bordo, o primeiro, à nossa direita

Trabalhador e interessado, «saltou» no ano seguinte, 1947, para o navio Elisabeth, como imediato, sendo capitão José André Senos, e piloto, Elmano Pio Maia Ramos, ambos conterrâneos. O Elisabelh, navio-motor de madeira, tinha sido construído para a empresa João Norberto Gonçalves Guerra, por Manuel Maria Gonçalves Mónica, em 1945, tendo feito a primeira viagem em 1946.

Navio-motor Elisabeth

Recordou-me a D. Ermelinda, que no ano em que se casara, 1946, o sogro era imediato do Hortense. O nome da primeira neta, Elisabeth, nascida em 25 de Julho de 1947, teria sido influenciado pelo nome do navio Elisabeth, em que fora de imediato, na viagem de 47? – pensei. Mesmo antes que o confirmasse, a Elisabeth revelou-mo. Não deixa de ser curioso.
Mas, a convite de Testa & Cunhas, Manuel da Silva (de alcunha Lavado), deu o salto para esta empresa, que serviu com competência e gosto, até ao fim dos seus dias. Foi imediato no navio-motor Inácio Cunha, nos anos de 1948 e 1949, sob o comando do figueirense Elias Andrade Bilhau,
E eis que, por ordem natural dos hábitos empresariais, ascendeu a capitão do bonito lugre-motor, de três mastros, o Cruz de Malta, mais pequeno, mas, sempre muito cuidado, considerado a mascote da empresa armadora. 

No Cruz de Malta, primeiro da direita.

O Capitão Lavado aí perfez seis viagens no comando, de 1950 a 55, tendo tido como imediatos, os ilhavenses Benjamim dos Santos Marcela (1951, 53 e 54) e José Simões Amaro, de alcunha o Forneiro, em 1952 e em 1955, Manuel Ferreira da Silva, da Gafanha da Nazaré.
Com grande vontade de construir uma casa em Ílhavo, na antiga Avenida Marechal Carmona, comprou o local onde ainda hoje mora a sua nora, por influência do vizinho e amigo Sr. Alexandre Gravato. Foi uma das primeiras casas da Avenida, do início dos anos 50. A esposa sentia-me muito só e isolada, enquanto o marido se ausentava para o mar, fazendo-lhe companhia a sua netinha. Dois a três anos mais tarde, resolveram passar a morar naquela mesma casa, onde um dia destes fui bater, o filho mais velho, nora e neta.
No navio-motor Inácio Cunha, o último navio que comandou, teve como imediatos, o seu conterrâneo Weber Manuel Marques Bela, em 1956 e 57,
Armando Correia de Carvalho, de Alvaiázere (1958) e Manuel Caçoilo Serafim, da Gafanha da Nazaré, em 1959 e 60.
Referiu-me a D. Ermelinda, com orgulho que os Testas & Cunhas gostavam muito dele. Trazia sempre o navio carregadinho, até com bacalhau em sítios impróprios para o carregar.
Infelizmente, deixou-nos relativamente cedo, o que constituiu um grande choque para familiares, colegas, amigos e armadores, ao deslocar-se do seu navio, o Inácio Cunha, para vir almoçar a sua casa na Avenida. Em acidente de motorizada, a 31 de Dezembro de 1960, com 62 anos de idade.
Nos jornais O Ilhavensede 1 e 10 de Janeiro de 1961, refere-se que meteu à travessa do Caleiro e, ao entrar na estrada de Ílhavo, quando passava um camião da Sacor, foi chocar com ele, tendo sido por ele arrastado, chegando já sem vida ao Hospital. Foi com enorme consternação que o funeral se realizou no dia seguinte. E assim partiu um Homem do Mar, desta vez, em violento acidente em terra.
A propósito do carácter do avô, a neta Elisabeth revelou-me ser muito seu amigo, lutador e alegre, frequentando, à época, com a família, os bailaricos do Texas. A propósito dos bailaricos, veio à baila a música, referindo que tocava viola, com muito jeito, a que, por vezes, chamava de violão. Haveria, por certo, alguma tendência musical, na família, pois, já em 1944, tinha ido ao Porto comprar um bom violino, ao filho mais novo, o Carlos, de que se apresentava um bom tocador. Memória atrás de memória, acabaram por se lembrar que, no sótão da casa da Chousa Velha, havia uma grafonola das antigas, com os respectivos discos.
E quando se mexe e remexe no passado, a neta Elisabeth acabou por me referir que o avô era do mesmo ano de nascimento (1898) de Manuel Trindade Salgueiro, de quem fora companheiro de escola e que viria a ser o «nosso Bispo do Mar».
Esta visita a Évora comprova o encontro afectuoso, entre ambos, entre os anos 55 e 60.
-
Em Évora, entre os anos 55 e 60

E eis o que conseguimos apurar, recolher, com esforço, ajudas e muito boa vontade, sobre o Capitão Manuel da Silva.
-
Ílhavo, 2 de Março de 2018
-
Fotos gentilmente cedidas pela Família

Ana Maria Lopes
-

domingo, 11 de março de 2018

Homens do Mar - João Simões Ré - 43

-
Cap. João Simões Ré. Julho de 1942

João Simões Ré, nasceu em Ílhavo a 8 de Julho de 1903, na Rua do Urjal sendo o filho primogénito do «velho» capitão Alexandre Simões Ré (1880-1967) e de Maria Nunes Vidal, entre uma descendência de oito irmãos – seis rapazes (José, Armindo, Manuel, Armando, Alexandre e, ele próprio, João) e duas raparigas, Célia e Maria. Dos seis varões, quatro foram oficiais da Marinha Mercante e o mais novo, Alexandre Simões (Ré), já referido, nascido em 1920, motorista no arrastão João Corte Real.
Era portador da cédula marítima nº 14441, passada na Capitania do Porto de Aveiro, em 2 de Dezembro de 1916.
Do casamento (24 de Janeiro de 1942) já um pouco tardio com Alcina Benvinda Ruivo Cachim, nasceram dois filhos, a Alcina Maria Cachim Simões Ré, que fez parte do meu grupo alargado de amigas na Costa Nova e o João António Cachim Simões Ré, também ele, oficial da Marinha Mercante O efeito das gerações marítimas ainda se ia sentindo, por Ílhavo…
Rés, Paiões, Ramalheiras, Cajeiras e muitas mais famílias de gente do mar ilhavense fazem-me sempre muita confusão no parentesco, mas nada como, pé ante pé, ir esclarecendo, junto de familiares e amigos. Os sobrenomes de irmãos, a maior parte das vezes, eram diferentes e as alcunhas e sobrenomes confundiam-se com frequência.
Teria sido da geração de ilhavenses que provaram a água do mar muito cedo, até porque os genes familiares lhes corriam nas veias.
Por informação da ficha do Grémio, deixou de exercer a profissão desde 1925 a 1934, por motivo de ausência. Pensei logo na hipótese de ter partido, nessa época de crise, como outros oficiais ilhavenses do mesmo período, e assim me foi confirmada pelos filhos, a sua presença na marinha de comércio brasileira. Da família dos Rés, forçosamente, teria ido cedo, muito cedo para o mar. Mas, a esse respeito, nada me foi confirmado. Deduzo… por semelhança com outras famílias.
Passando a pente fino, nos jornais Beira-Mar e O Ilhavense, desde os primórdios, as notícias referentes à saída para os Bancos da Terra Nova (há alguns hiatos), apercebi-me de que na safra de 1922 (e possivelmente, também em 23), teria sido piloto do lugre Patriota II, da praça do Porto, sob o comando do pai, Alexandre Simões Ré. A partir do momento em que as fontes do Grémio fornecem material seguro, surge como piloto do lugre-motor Santa Quitéria (nas viagens de 1936, 37 e 38), com o capitão João Nunes de Oliveira Sousa, também, de Ílhavo.
Este lugre-motor, ex-navio dinamarquês Vénus, construído em 1919, iniciou a pesca do bacalhau na campanha de 1935, propriedade da Empresa de Pesca Lavadores, Lda., com instalações de secagem, na Barra. Por curiosidade e com base no jornal O Ilhavense de 10 de Junho de 1941, tendo chegado à Terra Nova em 15 de Maio, abriu água, afundando-se. A tripulação de 50 homens foi salva e recolhida pelos lugres, que, por aquelas paragens se encontravam. Era seu capitão o já referido João Nunes de Oliveira Sousa e piloto, o nosso patrício Adolfo Francisco da Maia.

O Santa Quitéria, naufragado, já incendiado. 1941

João Ré começou por conhecer as agruras da pesca à linha, passando mais tarde, efectivamente a capitão-pescador de arrastões.
À laia de estágio, fez a primeira viagem na campanha de 1940, no arrastão Santa Joana, como piloto, sendo capitão Francisco dos Santos Calão e imediato, Manuel Gonçalves Viana. Este navio, como já referido, foi o primeiro arrastão lateral português mandado construir para a EPA, na Dinamarca, em 1935, adaptado às exigências dos mares gélidos do bacalhau.

A modernidade do arrasto lateral, à época

Voltou à pesca à linha, de saco de lona num novo convés, como piloto do navio-motor Santa Maria Madalena, de aço, construído para a Empresa de Pesca de Viana nos Estaleiros da CUF, em 1939. Nas campanhas de 1941 e 42, foi seu capitão Joaquim Fernandes Agualusa e imediato, Manuel Pereira da Bela, de alcunha Violante, também nosso conterrâneo.
Entre mar e terra e terra e mar, e empresa armadora, o tempo passado carinhosamente no seio da família ia sendo muito pouco e, normalmente, os filhos sabiam muito pouco da vida dos pais. As mães eram as matriarcas para tudo e para todos.
Para cumprir a dura missão da pesca à linha, faltava-lhe passar por dois navios:
 - Um, na safra de 1943, inaugurando-o, foi o navio-motor, de madeira, Bissaya Barreto, tendo João Ré passado a imediato, sob o comando de Elias Andrade Bilhau, natural da Figueira da Foz. Este navio, como já referido, foi construído para a Lusitânia Companhia Portuguesa de Pesca, Lda., por Benjamim Mónica, na Figueira da Foz, em 1943, tendo sido o primeiro navio-motor de pesca à linha construído de madeira.
 - Outro, na campanha de 1944, foi o famoso e elegante lugre-motor, de aço, de quatro mastros, o Creoula, ainda hoje navio de treino de mar para jovens e menos jovens, dependendo dos programas. Com Francisco da Silva Paião, o conhecido capitão Almeida, na chefia, e António dos Santos Labrincha, como piloto, João Ré, como imediato, deixou definitivamente na sua esteira a pesca à linha e passou decididamente para os arrastões de pesca lateral.
Entre os anos de 1945 e 1949 (inclusive), o arrastão João Álvares Fagundes foi a sua morada aquática, estreando-o, perfazendo nele, ao todo, sete viagens, com curtas estadias em terra, as duas primeiras de imediato e as restantes, sempre de capitão. Enquanto imediato, teve os ílhavos João Nunes de Oliveira Sousa como capitão e Júlio Pereira da Bela, o Salsa, como piloto.
Enquanto capitão, navegou com o conterrâneo António Augusto Marques (Marcela), como imediato (1948 e 49).
O arrastão clássico João Álvares Fagundes foi construído na Companhia União Fabril (CUF), em Lisboa, em 1945, para a Sociedade de Armadores de Bacalhau (SNAB), de Lisboa.
O arrastão clássico João Álvares Fagundes

Nos anos de 1950 e 1951, de «enxoval» ao ombro, saltou para o comando do arrastão do mesmo tipo Álvaro Martins Homem, tendo nele cumprido três viagens. Não era vida fácil – além dos perigos inerentes à profissão – suportar a ausência tão prolongada da família.
Este arrastão de aço também foi construído, em 1941, para Sociedade de Armadores de Bacalhau (SNAB), no estaleiro da Companhia União Fabril (CUF), em Lisboa.

A bordo, na asa da ponte, fumador inveterado

Chegou o momento de fazer uma viagem, a inaugural, no arrastão João Martins, a de 1952, com a oficialidade toda de Ílhavo, Asdrúbal José Sacramento Teiga, como imediato e José Nunes de Oliveira, como piloto.
Este arrastão foi construído nos Estaleiros Navais de Viana do Castelo, em 1952, para a SNAB., tendo sido registado em Lisboa, em 18 de Julho de 1952.
-
O arrastão João Martins
 
Segundo informação de Ricardo Lisboa da Graça Matias, na p. 142 da sua dissertação de mestrado, Os Arrastões do Bacalhau (1909-1993), apesar de ter sido o último arrastão do grupo inicial a ser construído, não foi, seguramente, o melhor deles, o João Martins.
E desta vez, mudou o saco do «enxoval», para finalizar a sua brilhante carreira de mar, de vez, para o convés do arrastão Fernandes Lavrador, por onze anos, desde 1953 a 1963, em que arrostou com o mar, as vagas, a lonjura, os growlers, os icebergs, os furacões, os cardumes, o azar, a sorte, a coragem e o destino. Ao todo, neste arrastão, sensivelmente, fez dezassete viagens.
O Fernandes Lavrador foi construído no Estaleiro T. Van Duijvendijk’s  Scheepswerf em Lekkerkerk, na Holanda, em 1947, tendo sido registado em Lisboa, em 25 de Agosto de 1948, também para a SNAB., sociedade a que o capitão foi fiel desde 1945.

O arrastão Fernandes Lavrador

Com o andar dos anos, as informações seguras sobre a oficialidade, sobretudo nos anos de duas viagens foi rareando, mas concluímos que foi seu imediato, o ílhavo, José Ângelo Ramalheira (1953), piloto, Mário Augusto da Silva Madalena (63) e praticante de piloto, António José Ferreira Simões Ré, seu sobrinho, em 1954.

Na asa da ponte, João Ré navegando em campos de gelo

E com a última viagem de 1963, deixou o oceano, com perto de cinquenta anos de mar salgado.
Não teve muito tempo para se refazer em terra da lonjura marítima, junto da família, entre a sua casa da Rua Arcebispo Bilhano, nº63 e a casa da Costa Nova, sobranceira à ria, sobre o Café Atlântida.
Trabalhador, leal, bom, simpático, afável, se bem que também soubesse ralhar, quando oportuno – era assim o capitão João Ré.
Deixou-nos, vítima de problemas respiratórios, em 30 de Março de 1970, com 67 anos.
Falar de Ílhavo, é falar do mar – do seu sussurro, da sua canção cujo eco se repercute pelos séculos além. Ílhavo e o mar andam tão unidos como o perfume às rosas e a inquietação à alma humana – já poetava João Marques Ramalheira.
-
Fotos – Gentilmente cedidas pela Família e arquivo pessoal
-
Ílhavo, 5 de Fevereiro de 2018
-
Ana Maria Lopes
-

domingo, 25 de fevereiro de 2018

Ílhavo... de outrora

-
Uma singela pausa nos assuntos marítimos do Marintimidades, para lembrar um assunto de que a minha mãe sempre me falava com enlevo e carinho.
O que a motivou? A oferta de uma foto que pessoa amiga me fez chegar às mãos, devido a umas arrumações de baús.
O saudoso e considerado Prof. José Pereira Teles, fundador do nosso jornal O Ilhavense, escreveu, em 1933, a famosa peça infantil, a Nossa Escola, num total de 40 variados e preciosos números, cujos actores eram alguns alunos/as da dita Escola Nova, hoje, Escola da Música. O maestro Berardo Pinto Camelo, a seu pedido, musicou-a e dirigiu a orquestra da revista infantil, que era composta por diversos instrumentos tocados por conhecidos músicos, ao tempo – violinos, flauta, cornetim, clarinete, saxofones, trombones, rabecão e bateria.
A peça Nossa Escola foi estreada a 8 de Dezembro no Teatro Municipal de Ílhavo, em Cimo de Vila, tendo sido um estrondoso êxito para a época, com mais de trinta representações em várias localidades do país.
Mas, qual a ligação à minha mãe? Muito jovem ainda, ela desempenhou o responsável papel de comère (apresentadora de continuidade), ao longo de toda a revista, nos intervalos dos diversos números.

Maria Rosinha e Nené

A foto em causa, um primor saído dos registos do fotógrafo ilhavense Paulo Namorado, reproduz, em luxuosos e encantadores vestidos ornados a renda de guipure, as lindas meninas Maria Rosa da Graça Peixe (à nossa esquerda) e Nené (assim era conhecida) Sacramento Simões.
-
Ílhavo, 25 de Fevereiro de 2018
-
Ana Maria Lopes
-