sábado, 12 de agosto de 2017

Tributo a Capitães de Ílhavo


Prefácio
 
Este Tributo a Capitães de Ílhavo, de autoria de Ana Maria Lopes, não poderia ser dado à estampa e oferecido à comunidade ilhavense em melhor momento. No dia em que o Museu Marítimo de Ílhavo comemora os seus oitenta anos de vida, este livro generoso e quente, tecido delicadamente sobre memórias de família dos admiráveis Capitães de Ílhavo, constitui um presente emoldurado, um diálogo de gerações para dar corpo e espírito à memória futura.
Não escrever este livro seria muito mais cómodo. Mas não foi essa a decisão de Ana Maria Lopes, que aceitou de pronto o desafio que lhe lancei quando soube das notas biográficas que vinha alinhando para publicação informal no seu blogue.
O património e as dívidas da memória comportam uma dimensão ética que pede a generosidade do risco e o desassombro da partilha. Daí a importância deste livro e da iniciativa homónima que o Museu imaginou neste seu ano jubilar em que o território, a identidade local e os seus protagonistas se invocam sem freios. Bem sabem os leitores deste livro, quanto o Museu Marítimo de Ílhavo tem procurado pluralizar memórias e abrir o jogo das identidades a todos os protagonistas humanos da Faina Maior.
Esta herança cultural lendária faz-se de múltiplos heróis humanos, da proa à popa. Prestar tributo aos Capitães de Ílhavo significa reconhecer uma elite local cuja fama correu o país e o mundo e significa fazê-lo de maneira aberta e inclusiva, com os Capitães e os Pescadores, em companha. Basta lembrar que no mesmo ano em que promove esta iniciativa e a presente edição, o Museu Marítimo de Ílhavo editou o livro Portugal no Mar – Homens que foram ao Bacalhau e apresenta ao público um extraordinário portal, Homens e Navios do Bacalhau, quase um museu virtual.
«Tributo a Capitães» e não «aos Capitães», assim o quis intitular Ana Maria Lopes, sabiamente, evitando presunções e a ciclópica ideia de biografar todos os Capitães ilhavenses. Trata-se assim de um tributo profundamente humano, da invocação de uma parte significativa dos Capitães de Ílhavo. Trata-se de uma parte que fala e vale pelo todo, de uma amostra que representa um universo.
Aqui se reúnem trinta breves biografias de Capitães ilhavenses já desaparecidos, conjugando palavras certas e belíssimas imagens, muitas delas inéditas porque residiam algures em silêncio. As biografias privilegiam o currículo marítimo dos oficiais e as principais peripécias dos navios que governaram. Homens houve que naufragaram três vezes. Muitos já eram filhos e netos de oficiais da Marinha mercante. A esses detalhes narrativos, fios de água que levam ao mar, aditou-lhes a autora preciosas notas humanas, traços de vida e testemunhos de família que não deixarão de interpelar outras memórias quando estas páginas forem dissecadas emotivamente.
Os Capitães de Ílhavo são homens de mar, admiráveis marinheiros, nautas por treino e vocação. Mesmo quando comandaram navios nunca deixaram de ser pescadores, continuidades que devem ser lembradas e valorizadas.
A diversidade de biografias que se encontram neste livro permite-nos confirmar que, se lhes chamarmos «Lobos do Mar» ou algo semelhante, não estaremos a exagerar nem a replicar os arroubos da propaganda do Estado Novo. Quando Alan Villiers lhes chamou «os melhores navegadores do mundo», na célebre Campanha do Argus (1951) e num texto que a seguir publicou na revista National Geographic, não exagerou mais do que viu, quotidianamente, nos mares do Norte. Mas fica claro que essas expressões mitificadoras tendem a tipificar estas figuras humanas; salientam os seus traços comuns como se um molde humano lhes tivesse esculpido o carácter e as habilidades náuticas. Um dia, partindo deste livro, será necessário empreender uma prosopografia dos Capitães de Ílhavo. Imagino uma biografia colectiva, de um grupo ou de uma elite dotada de traços comuns, mas de percursos e idiossincrasias singulares. A ideia é dura, mas fecunda.
Quero manifestar a minha alegria por escrever o prefácio deste saboroso livro, agradecer o desafio à Dr.ª Ana Maria Lopes e o entusiasmo dos Amigos do Museu. E devo assinalar, em briosa defesa do nosso Museu, que neste livro os créditos fotográficos encontram-se judiciosamente indicados e as fontes de arquivo que o Museu tem o privilégio de preservar também são devidamente referidas. Aparelhar este navio e fazer esta viagem só augura novas campanhas e maiores empreendimentos. Afinal, o património é tão somente o presente das coisas passadas. Um assunto infinitamente humano.
Álvaro Garrido
Professor da Universidade de Coimbra. Consultor do Museu Marítimo de Ílhavo
Ílhavo, 8 de Agosto de 2017
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AML
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terça-feira, 27 de junho de 2017

Homens do Mar - José Pelicas Gonçalves Bilelo - 34

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Capitão José Pelicas Gonçalves Bilelo
Aqui pelas vizinhanças, pelos conhecimentos e pelas genealogias marítimas, tão habituais em Ílhavo, tinha que parar por ali, na Rua de Camões, nº 87 – falo de José Pelicas Gonçalves Bilelo.
O Sr. Capitão José Pelicas Gonçalves Bilelo (1920-2000), nasceu em Ílhavo em 19 de Fevereiro de 1920.
Filho de Aquiles Gonçalves Bilelo (1887-1962), que já lembrei a seu tempo, e de Maria Rosa Pelicas, teve, do casamento com a Senhora D. Maria Manuela da Cruz Bixirão, muito amiga de minha mãe, três filhos – José Alberto, Vasco Manuel e Maria do Rosário Bixirão Gonçalves Bilelo. O primeiro foi oficial da Marinha Mercante, o Vasco foi meu aluno e com a Maria do Rosário, mantenho uma relação cordial.
Acabou o Curso de Pilotagem da Escola Náutica em 1942, tendo obtido a cédula de inscrição marítima nº 23945, passada pela capitania do porto de Aveiro, em 23 de Dezembro de 1942.
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 Possivelmente, a bordo do José Alberto. Anos 40

Dados credíveis permitem-me afiançar que nos anos de 1943 e 44 foi piloto do lugre-motor José Alberto, sendo capitão seu cunhado José Vaz Mano e imediato, Manuel dos Santos Malaquias. Como já referi, o José Alberto, ex-Caroline foi construído na Dinamarca, em 1932, tendo sido adquirido pela Sociedade de Pescas Oceano, Ld.ª, da Figueira da Foz, para a campanha de 1935. Tinha uma silhueta que o distinguia de todos os navios da nossa frota.

 O José Alberto, no início dos anos 60. F. Baier

Em 1945, foi imediato do navio Portucale, do comércio, sendo o capitão, o seu sogro, José da Cruz Bixirão. Desembarcou no ano anterior ao trágico naufrágio do navio, em 1946.

Ainda, piloto, a bordo…

Agora, começa a dança dos arrastões, que se torna bastante mais difícil de cotejar, pelo facto de poderem fazer duas viagens, podendo a oficialidade não se manter de uma para a outra.
 
Na safra de 1946, cumpriu o cargo de piloto no arrastão da EPA Santa Joana, 2 viagens, sob o comando do Capitão Francisco dos Santos Càlão, na primeira, e Capitão José Pereira da Bela, na segunda. O imediato era João Laruncho de São Marcos.
Na de 1947, igualmente no arrastão Santa Joana, também com 2 viagens, a oficialidade manteve-se, incluindo o capitão, que foi José Pereira da Bela.
 
Na campanha de 1948, também de 2 viagens, exerceu a função de piloto, na 1ª viagem e de imediato, na 2ª, mas, então, do arrastão Santa Princesa. O capitão da 1ª viagem foi António Trindade da Silva Paião e o da 2ª, o Capitão Manuel Inácio Gaia, da Figueira da Foz. O imediato da primeira foi José da Silva Rocha e o piloto da 2ª, Weber Manuel Marques Bela.
Na campanha de 1949, de uma só viagem, continuou a ser imediato do mesmo arrastão, igualmente sob o comando de Manuel Inácio Gaia, pilotado por Weber Manuel Marques Bela, de Ílhavo.
O arrastão Santa Princesa foi construído de aço, nos estaleiros Cox & Cª. (engineers), Lda., Falmouth, Inglaterra, em 1930, com o nome de Sptitzberg, tendo sido comprado pela EPA, em 1939, que o rebaptizou de Santa Princesa.
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O arrastão Santa Princesa, à entrada de Leixões. Fotomar

Durante as safras do 1950 e 51, estreou-se como capitão do esbelto lugre-motor Brites, da praça de Aveiro, levando como imediato, Artur de Oliveira da Velha. Nada de expectante, e a vida continua no mar, com curtas estadias em terra.

De 1952 a 1961, foi para a praça de Viana, substituir o pai, Capitão Aquiles Gonçalves Bilelo, que se aposentara, após o términus da campanha de 51, como capitão do navio-motor São Ruy.
É natural que tenha tido e teve, alguns imediatos e pilotos de Viana do Castelo e das redondezas, mas, Ílhavo também esteve presente com outros – Francisco Manuel de Oliveira Leite, piloto em 52 e 54 e imediato em 53, Orlando Brandão Vidal, piloto em 1954 e Alberto Marques Pauseiro, imediato de 57 a 60.
 
O navio-motor São Ruy

De 1962 a 1972, onze campanhas, foi capitão do arrastão Rio Lima, não tendo feito a segunda viagem, nos anos de 1965, 67 e 1972.
Durante este período, foram seus imediatos José Manuel Redondo Malaquias e Manuel Ângelo Nunes Correia, de Ílhavo.
O arrastão Rio Lima fora proveniente do navio-motor, de ferro, com o mesmo nome, construído nos Estaleiros Navais de Viana do Castelo, em 1952 para a Empresa de Pesca de Viana, que foi transformado em arrastão clássico, após a campanha de 1961.

O Rio Lima fundeado em Lisboa, na Junqueira. Foto de LMC

Nas campanhas de 1973 a 1976, comandou o arrastão também lateral Senhora das Candeias, tendo tido como imediatos José Ferreira da Costa Rocha, de Monserrate e António Fernando Paroleiro Santos, de Ílhavo.
O Senhora das Candeias foi arrastão lateral, de origem, mandado construir nos Estaleiros Navais de Viana do Castelo em 1948, por ordem da EPV.
Ainda em 1976, ficou como Capitão Chefe da Empresa de Pesca de Viana, tendo-se aposentado em 1979, após cerca de 36 anos de mar intenso.
Passou, junto da família, ainda alguns aninhos, que poderiam ter sido bem mais calmos, se não tivesse exercido o cargo de Presidente da Câmara entre 1980 e 82.
Deixou-nos a 15 de Janeiro de 2000, com 79 anos de idade, depois de não ter resistido à falta da esposa, desaparecida, há pouco menos de um mês.
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Imagens – Arquivo pessoal e gentil cedência de familiares
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Ílhavo, 19 de Dezembro de 2016
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Ana Maria Lopes
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domingo, 28 de maio de 2017

Na Escola Primária da Gafanha da Encarnação

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A propósito de um escrito de Senos da Fonseca, no FB, relativo à Gafanha da Gramata, depois da Maluca e, por fim da Encarnação – veio-me à cabeça um capítulo da minha vida escolar em que também tem lugar a Escola Primária da Gafanha da Encarnação.
Vou para a Costa Nova desde que nasci, sempre para a mesma casa.

O bonito palheiro…

Antes de ter a arquitectura actual, era um bonito palheiro de rés-do-chão em adobe, com varanda, o terceiro da Calçada Arrais Ançã (lado sul), a partir do actual Largo da Marisqueira, de onde se usufrui uma paisagem inebriante e mutante, de dia e de noite, ao amanhecer e ao entardecer. Era esta a vista da minha casa, até 1973, inserida num horizonte sem fim.
 
Mota actual – 1942
 
Com o aterro parcial da laguna (seria necessário?), foi-me roubada.
Costa-Nova dos meus encantos!!!!! Adeus bateira Namy atracada ao moirão multicolor, em frente a casa! Adeus serventia do embarcadouro da barca! Adeus travessia para a «Bruxa». Adeus pesca ao caranguejo da muralha com fio, pedra ou concha e uma lasquita de bacalhau! Também passaram à história as belíssimas atracações da barca, ao perto, em dias de nortada ou de inverno, com marola forte e vento rijo, não sei se à Labareda nem se não. Mas lá que eram bonitas, certeiras e arrojadas, eram.

Era este o cenário em 1973…

Mas, voltando à história, frequentei a 1ª e 3ª classes da Escola Primária, nesta linda praia, entre ria e mar situada.
Foi minha professora a Senhora D. Palmira, de quem guardo gratas recordações, bem como de algumas colegas que ainda hoje reconheço.
O «lugar» para a Escola Primária que frequentei foi criado em 1930, na então Avenida Boa-Vista, a norte.
Um belo dia, a Senhora Professora informou a minha Mãe que eu, com 5 anos, chegava demasiado cedo à escola. Gostava sempre, antes das aulas de ir ver o mar. Vem de longe, esta tendência…
Chegado o final do ano lectivo de 1950-51, o exame da 3ª classe estava à porta. O meu primeiro exame. E onde fazê-lo? Tinha de ser na Escola da Gafanha da Encarnação
Sempre que lá passo, me lembro.
 
Escola da Gafanha da Encarnação em 1959

Claro, tínhamos que ir de barca, à vara, tão calmo estava o dia de Julho, e, a pé, até à escola. Vestido novo… toda enfeitada.
Uma nova escola, novos professores, novo ambiente…algum nervosismo.
O texto que me saiu em sorte foi «A libelinha e as folhas de nenúfar». Correu bem e, no final, bom resultado.
Voltámos. A minha Mãe e Avó esperavam-me…com ansiedade. A sua menina a chegar do primeiro exame… e de barca!!! Quem se gaba do mesmo?
Um pequeno percalço, no regresso: escorregou-me um lápis novinho em folha, costado abaixo e enfiou-se debaixo dos pesadões paneiros da embarcação.
Por mais que pedisse, lamuriosa, ao barqueiro, ele não se compadeceu da minha pena. Será que um insignificante lápis merecia o trabalhão de levantar um ou dois paneiros da grande barca?... Lá ficou, mas não me esqueci…

O que interessava é que estava na 4ª classe, com as férias à porta…
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Mota – Cliché João Telles
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Restantes fotografias – Arquivo pessoal da autora
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Ílhavo, 28 de Maio de 2017
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Ana Maria Lopes
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domingo, 14 de maio de 2017

Homens do Mar - David Càlão Marques - 33


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Capitão David Marques, a bordo do Inácio Cunha-
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David Càlão Marques nasceu em Ílhavo a 20 Agosto de 1926, sendo um dos filhos de uma descendência de oito irmãos, dos quais três rapazes, todos oficiais da Marinha Mercante. O mais novo, António Samuel, por doença, nunca chegou a embarcar. Do lado dos pais, Nazaré Correia e António Marques (a que já nos referimos), existia uma vasta tradição familiar de ocupações ligadas ao mar. Era irmão mais velho do saudoso Capitão Chico Marques.
No ano de 1948, terminou o Curso de Pilotagem da Escola Náutica, tendo sido portador da cédula marítima nº 43600, passada na Capitania do Porto de Lisboa em 8 de Agosto de 1947.
Do casamento com Maria Luísa Maia Batel, nasceram dois filhos, o João David, oficial da Marinha Mercante e Francisco Jorge Batel Marques, ambos, como eu, bisnetos da arraisa Càloa. O efeito das gerações ainda se fazia sentir, em Ílhavo.
Só mesmo o mar, dados os antecedentes familiares, podia ser o seu destino profissional.
David Marques iniciou a pesca ao bacalhau, na campanha de 1948, como piloto do arrastão Senhora das Candeias, sob o comando de José Gonçalves Vilão, tendo como imediato Manuel Santos Marnoto Praia, de Ílhavo. Fora a estreia do arrastão.
O Senhora das Candeias foi mandado construir pela Empresa de Pesca de Viana nos Estaleiros Navais da mesma cidade.
 
O arrastão Senhora das Candeias
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Nas safras de 1949 a 54, estreou-se na pesca à linha, durante seis viagens, como imediato do navio-motor, de madeira, Capitão Ferreira, sob o comando de seu pai, Capitão António Marques.
Foram seus pilotos, Mário dos Reis Maurício, de Lisboa (49), Fernando Esteves Águas, da Figueira da Foz (50 e 51), César Augusto dos Santos Oliveira, residente, que foi, em Vagos (52 e 53) e Samuel Pinto Borges, da Figueira da Foz (54).

O navio-motor, da praça da Figueira da Foz, fora mandado construir para Atlântica – Companhia Portuguesa de Pesca, em 1945.
 
O navio-motor, de madeira, Capitão Ferreira, em 1946
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Na campanha seguinte, a de 1955, estava na altura de mudar de navio e estreou-se como capitão do lugre-motor Brites, pertença da empresa Brites & Vaz, Lda., da Praça de Aveiro. Foi seu imediato António Simanta Carvalho, de Beja.
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O lugre-motor Brites, nos anos 60
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Os capitães tinham por hábito, de quando em vez, visitarem-se nos navios que comandavam. Eis uma chapa de quatro capitães de Ílhavo de uma geração mais recente – Elmano Pio da Maia Ramos, capitão do Hortense, David Marques, capitão do Brites, Francisco Correia Marques, capitão do Adélia Maria e João Fernandes Matias, capitão do Gazela Primeiro.
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A bordo do Gazela, em 1955
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David Marques, no ano de 1956, retomou o navio-motor, Capitão Ferreira, mas, desta vez, ascendendo ao cargo de capitão. Foi seu imediato o nosso patrício António Tomé da Rocha Santos.
Por motivo de doença e de uma intervenção cirúrgica, no ano de 1957, não foi à pesca.
E de viagem em viagem e de navio em navio, em várias «empostas», o Capitão David, na campanha de 1958, estreou o navio-motor, de aço, Rio Alfusqueiro, em que fez duas viagens de capitão, tendo tido como imediatos, Manuel Paulo Pinto Nunes Guerra (58) e Francisco Manuel Mendes Calão, em 59, e como pilotos, Francisco Manuel Mendes Calão (58) e António Brito Vida Branco, de Soza (59). O Rio Alfusqueiro fora construído para a EPA, nos, à época, Estaleiros de São Jacinto.
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O navio-motor Rio Alfusqueiro, em dia de bota-abaixo. 1958
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Na campanha de 1960, mudou de rumo e de rota, tendo ido para a pesca do Cabo Branco. Fez algumas cadeiras do Curso Complementar (Curso de Capitão), que concluiu no princípio de 1961.
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Nas campanhas de 1961 e 62, transferira-se para a Empresa Testa & Cunhas, Lda., onde assentara arraiais. Começara por exercer o cargo de capitão do navio-motor de madeira, Inácio Cunha, construído em 1945, pelo Mestre Manuel Maria Bolais Mónica. Foram seus imediatos, António Brito Vida Branco, de Soza (61) e Adolfo Francisco da Maia, de Ílhavo, (62).
 
A bordo do Inácio Cunha… 1961
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No ano de 1962, o Capitão David Marques declarou à empresa 11 162 quintais de bacalhau, de acordo com o seu diário de pesca, pelo que o navio abandonou o pesqueiro e chegou a Aveiro, sobrecarregado, pondo em perigo o navio, a sua carga, seus pertences e vidas humanas.
O que se fazia por mais uns quilitos de bacalhau, para ganhar a vida!!!!
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À chegada à Gafanha da Nazaré, bem no fundo… 1962
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O Capitão David, de 1963 a 1971, durante nove anos, comandou o meu idolatrado afilhado, que me deu tantas alegrias – o navio-motor de madeira, cujo bota-abaixo foi na Gafanha da Nazaré, em Março de 1956 – o São Jorge.
 
Belos e variados pormenores da ponte e convés deste navio…
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Enquanto esteve à sua frente, teve como oficiais, os imediatos, Joaquim Pereira Fernandes (1963) e João Guilherme da Silva Ferreira (64 a 66), da Gafanha da Nazaré, Mário Paulo do Bem, de Ílhavo, em 1967 e 68, Mário Manuel Gamelas Santana (69), residente em Aveiro e João Isidoro de Jesus Martins (1970 e 71), também de Ílhavo.
No ano de 1972, conheceu outros climas, fazendo uma viagem a Angola no navio-cisterna Porto de Aveiro, com um carregamento de vinho tinto a granel, embarcado na Gafanha da Nazaré. Também fez a viagem de imediato no Gil Eannes, com o Comandante António Manuel Papão Chinita. O ano de 1973 fora o da última viagem do navio-hospital, na assistência à frota bacalhoeira.
David Marques, ainda na campanha de 1973, voltou ao Capitão Ferreira, já transformado para navio de redes de emalhar com lanchas, tendo tido como imediato José Boavida de Carvalho Mesquita, de Lisboa.
Em 1973/74, foi capitão do navio porta-contentores Eco Tejo, com o imediato Manuel Luiz Chuva Machado dos Santos, de Ílhavo.
Começou a vida profissional com o avô, Capitão Manuel Santos Marnoto Praia e acabou com a companhia do neto, Manuel Luiz Chuva Machado dos Santos.
O tempo corre, corre, corridinho e cada um sente as suas corridas e as faltas dos seus. Em 25 de Abril de 1974, prematuramente, com 47 anos, partiu sem regresso, com 25 anos de mar. Ainda dizem que se morre muito no mar… Morre, pois morre, mas morre-se sobretudo, quando e onde se tem o destino marcado.
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Imagens – Meu arquivo pessoal
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Ílhavo, 10 de Dezembro de 2016
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Ana Maria Lopes

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Homens do Mar - Alexandre Vidal Simões - 32

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Alexandre Simões Vidal. Setembro de 1966
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Alexandre Vidal Simões (Ré), nado e criado em Ílhavo a 30 Janeiro de 1920, era o filho mais novo de Alexandre Simões Ré (1880-1967) e de Maria Nunes Vidal, entre uma descendência de oito irmãos – seis rapazes (João, José, Armindo, Manuel, Armando e, ele, Alexandre) e duas raparigas, Célia e Maria. Dos seis varões, quatro foram oficiais da Marinha Mercante. Alexandre Simões também foi marítimo, ajudante de motorista, tendo chegado pela sua dedicação e saber a exercer o cargo de maquinista.
 
Era portador da cédula marítima nº 11477, passada na Capitania do Porto do Porto, em 26 de Fevereiro de 1944.
 
Do casamento com Maria Mercedes da Silva, nasceram três filhos, a Mercedes, a Esperança e o João Alexandre, também ele, oficial da Marinha Mercante O efeito das gerações marítimas, ainda se foi sentindo, em Ílhavo…
Paiões, Ramalheiras, Cajeiras, Rés e muitas mais famílias de gente do mar ilhavense fazem-me sempre muita confusão, no parentesco, mas nada como, pé ante pé, ir esclarecendo. Os sobrenomes de irmãos, a maior parte das vezes, eram diferentes e as alcunhas e sobrenomes confundiam-se com frequência.
Alexandre Simões tinha uma habilidade manual que a Mercedes sempre enaltece com carinho e orgulho de filha. Aprendeu e praticou a sua «arte», nas serralharias de José Peixe e António Larico, cá no burgo, tendo, mais tarde, sido um óptimo funcionário da Fundição Paula Dias, em Aveiro, ao mesmo tempo que continuava com os estudos, em regime nocturno, na Escola Comercial.
Mas, o apelo do mar, numa vila maruja como Ílhavo, teria sido mais forte. E foi, de facto. A partir de fontes credíveis, Alexandre Ré começou como ajudante de motorista no lugre Navegante II, sob o comando de seu irmão João Simões Ré, na campanha de 1945.
Este lugre-motor de madeira, de três mastros, ex-Voador, foi construído para a Sociedade de Pesca Oceano, Lda., por António Dias dos Santos, em Fão, em 1912, tendo sido adquirido pela firma Ribaus & Vilarinho, com sede em Aveiro, em 1934.
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Lugre Navegante II, na Gafanha da Nazaré
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Na campanha de 1946, como ajudante de motorista (2ª viagem) embarcou no arrastão da SNAB, João Corte Real, sob o comando de Manuel Simões Ré, seu cunhado. A este navio, voltaria, mais tarde, em muitas mais viagens.
De retorno à pesca à linha do bacalhau, Alexandre Ré trabalhou em alguns dos navios míticos da Parceria Geral de Pescarias, com instalações de secagem na Azinheira Velha/Barreiro.
Nas campanhas de 1947 a 1949, embarcou no belo cisne branco Creoula, como 2º motorista, sob o comando do Capitão Francisco da Silva Paião, o intrépido Cap. Almeida.
Na campanha de 1951, experimentou, como motorista, o malfadado lugre-motor de madeira, Hortense, sob o comando do ílhavo João Simões Chuva, o Anjo.
E, saco no convés, chegou a vez de saltar para o mítico Argus, nas campanhas de 1952 e 53, como 2º motorista, sob o comando do Cap. Adolfo Simões Paião Júnior. Do primeiro ano no Argus, 1952, a Mercedes cedeu-me esta grata recordação fotográfica, com os pais e com o Cap. Adolfo, a bordo, há 65 anos. A pilha de sete botes compunha e embelezava o cenário marítimo.
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A bordo do Argus, em Lisboa. 1952
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Na campanha de 1955, duas viagens como 3º motorista no arrastão São Gonçalinho atraíram-no. A oficialidade manteve-se – capitão, David Manuel Mendes Calão, imediato, Manuel Gonçalves da Silva (Paroleiro) e praticante de piloto, Ernesto Manuel dos Santos Pinhal, todos de Ílhavo. Este arrastão clássico, mandado construir pela Empresa de Pesca de Aveiro (EPA), nos Estaleiros Navais de Viana do Castelo, fez a sua primeira viagem em 1948.
De seguida, parece que o arrastão clássico pertença da Sociedade Nacional dos Armadores do Bacalhau (SNAB), João Corte Real, o seduziu, nele permanecendo durante muitos anos, sem que tivesse vindo a conhecer mais nenhum navio – de 1956 a 1972.
 
O arrastão clássico João Corte Real
Por curiosidade, o João Corte Real e o Álvaro Martins Homem foram navios gémeos e os dois primeiros arrastões construídos em Portugal, nos estaleiros da Companhia União Fabril (CUF), em Lisboa.
Na campanha de 1956, Alexandre Simões (Ré) ai retomou a sua carreira de 3º motorista, tendo ascendido a pulso e por mérito, em 1971, a 1º maquinista, tendo passado por 2º motorista e maquinista. Entre 1956 e 63 (inclusive), foi seu capitão José Ângelo Ramalheira, também de Ílhavo.
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Em St. John’s, em 1971
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Entre 1964 e 69, trabalhou sob o comando de capitães de fora, incluindo João Francisco Moreira Neta, de 1970 a 72, natural da Palhaça.
Alexandre Simões, bonacheirão, habilidoso, brincalhão, respondia com graça aos que lhe sugeriam comprar um carro, que não trocaria pela sua bicicleta. Não me faz falta – já lá tenho dois Mercedes em casa – mulher e filha.
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Momentos de convívio e diversão, a bordo do João Corte Real

São identificados, à esquerda, Alexandre Simões e, a meio, Manuel Tomé Cruz de Oliveira, residente em Ílhavo.
Nos finais de 60, teve o azar de partir uma rótula a bordo, pelo que esteve uns tempos internado no Gil Eannes, regressando ao navio, de muletas, hoje objecto de museu do navio-hospital.
Mas, um azar nunca vem só e o clímax da sua vida estava marcado. No início de Setembro, por volta das celebrações do Senhor Jesus dos Navegantes, sua mulher recebera um telefonema que lhe dera conta da terrível notícia – o marido fora atingido, na casa das máquinas, pela explosão de uma caldeira, que o deixara em desastroso estado, tal a amplitude e o grau das queimaduras sofridas. Nem imagino o que terá sido para a sua mulher, ainda na força da vida, receber uma notícia dessas! Alexandre Ré foi imediatamente internado num hospital de St. John’s, acabando por falecer em pouco tempo, dia 3 de Setembro, não dando sequer hipótese de ela ainda o ter visto com vida.
Ílhavo foi mais uma vez assolado por esta trágica notícia, tendo sido o seu funeral muito concorrido e a sua morte muito sentida em todo o meio, onde era bastante estimado. Assim partiu, com 52 anos, tendo sido o funeral no dia 7 de Setembro de 1972, este conterrâneo, que do mar vivia, a ganhar o sustento da Família, em fatal acidente com laivos de tragédia.
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Fotografias – Gentil cedência de sua filha Mercedes
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Ílhavo, 2 de Abril de 2017
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Ana Maria Lopes
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quinta-feira, 20 de abril de 2017

Feriado Municipal de Ílhavo. 2017

Feriado Municipal em imagens
 
1. Sessão solene, pelas 10h e 30, no Salão Nobre dos Paços do Concelho
 
Condecorações honoríficas
 
2. Lançamento do livro «Ílhavo, Terra Milenar», monografia plural, apresentado pelas 17h, na CCI.
 
Capa do livro
Assistência
Grupo parcial de colaboradores
Colaboradores
 
3. Actuação da Banda Sinfónica da GNR, pelas 18h e 30.
Banda Sinfónica da GNR

Fotos de Etelvina Almeida e António Resende
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Ílhavo, 20.4.2017
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domingo, 16 de abril de 2017

Curso de Pilotagem de 1900

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Pessoa amiga, bisneta de um dos fotografados, ofereceu-me, ontem, esta fotografia extremamente curiosa, bem como a sua identificação. Preciosa!!! Um rico folar de Páscoa!...
Trata-se de uma foto de estúdio, creio, à época, do jovem curso de pilotagem, em 1900.
O seu trajar seduziu-me – fatinho de calça, paletó e colete, camisa de colarinhos gomados e levantados, gravata, botim ou sapato fino, lencinho no bolso do casaco, à janota.
A maioria de bigodinho a preceito, todos de cabeça coberta por chapéu de feltro escuro ou panamá, de palhinha, tipo galã. Que pose!... Fazendo parte de um curso de pilotagem de 1900, viriam a ser futuros homens do mar – pilotos, imediatos e, mais tarde, capitães.
Por grande curiosidade, estão todos identificados, bem como nomeada a terra de onde são provenientes.
Quase todos de mãos ocupadas com livros de registos e de belos instrumentos náuticos – ampulhetas, sextantes, oitantes, globo, etc. Um primor!
Constituem um belo quadro do nosso passado «ílhavo»!
Curso de Pilotagem de 1900

No verso, surge a identificação e algumas nótulas com interesse, dada a sua antiguidade.
É foto que circula por aí, entre a família Ré, que já conhecia, mas que havia apenas visto em fotocópia, o que não resultava para o que queria.
Identificação do Curso de Pilotagem de 1900
Mais uma prova de que Ílhavo forneceu grande quantidade de oficiais para o mar! Dos dezassete fotografados, 9 são naturais de Ílhavo e dois, de Aveiro. Mais um do Porto, um de Cabo Verde, dois de Vila do Conde, um de Buarcos e outro de Celorico da Beira.
Dos de Ílhavo, estão identificados: Praia, João Tróia, João Guerra, Alexandre Simões Ré (patriarca da família Ré, nascido em 1880), João da Cruz, José Leite, Armindo Oliveira, Amândio Lau e Manuel da Agra Saltão. Todos os nomes nos são familiares.
À laia de nota – O explicador era Tolentino de Morais, ex-oficial náutico, na rua de S. Félix à Lapa, em Lisboa.
O custo da alimentação, alojamento e explicação rondava os 16 reais e 50.
O curso teria começado em 25 de Março de 1900 e o exame estava previsto para Setembro seguinte.
Belo apontamento!...
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Foto cedida por pessoa amiga da Família Ré
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Ílhavo, 15 de Abril de 2017
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Ana Maria Lopes