domingo, 15 de janeiro de 2017

AMI enriquece espólio pictórico do MMI

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Ontem numa frígida noite de 14 de Janeiro, em que o Museu Marítimo de Ílhavo anunciou o programa de eventos comemorativos do seu octogésimo aniversário (com o seu ponto alto a 8 de Agosto), a Associação dos Amigos do Museu de Ílhavo (AMI) teve o prazer de enriquecer a colecção de pintura, que, desde há três anos, se exibe em sala apropriada para o efeito, – o melhor dos nossos maiores e não só…. temas marítimos ou lagunares, dentro de determinadas correntes que se consideram essenciais na colecção.
Este ano, nos seus 80 anos, o que lhe teríamos reservado? Um achado…uma pérola… que vinha enriquecer o espólio museal.
Aqui atrasado, foi a leilão no Palácio do Correio Velho, uma aguarela intitulada Marinha, de pequena dimensão, 12,5 cm. x 25,5 cm, assinada por T. Mello, não datada. O preço não era assim muito ousado, até porque o suporte apresentava leves sinais de pigmentação, fáceis de atenuar, por restaurador perito.
Marinha de T. Mello

Marinha pode designar muita coisa, mas, neste caso representava duas bateiras ílhavas, na praia, muito provavelmente, em Cascais, com alguns pescadores ílhavos. Depois de observar o quadro, on-line, o entusiasmo apoderou-se de mim. Parece que tinham sido feitas de encomenda. As «nossas tão faladas ílhavas», de uma beleza, elegância e cromatismo extraordinários. Que belíssimo bocado de papel aguarelado documental!....
Depois de umas peripécias leiloeiras, a aguarela era pertença do MMI, pelas «mãos» da AMI.
Ao vê-la ao vivo, os olhos caíram-me nela e dela não se queriam distanciar. Todo o conjunto – aguarela, passepartout e moldura eram trespassadas por uma patine encantadora, que o tempo confere aos documentos.
T. Mello (Thomaz de Mello) foi um autor luso-brasileiro, nascido no Rio de Janeiro, em 1906 e falecido em Lisboa, em 1990.Viveu quase toda a vida entre Cascais e Sintra, tendo-se dedicado a vários meios gráficos, desde a pintura ao desenho, passando pela BD, caricatura e tapeçaria, estudados pelo crítico de arte José Augusto França. Pertenceu à segunda geração de pintores modernistas.
Ílhavo, 15 de Janeiro de 2017
Ana Maria Lopes
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quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Homens do Mar - António dos Santos - 27




Capitão António dos Santos
À procura de impossíveis, lá vou pedindo, telefonando, escrevendo, indo a casas onde nunca tinha entrado e conversando com pessoas com quem nunca tinha conversado. E assim fui falar, depois de já anunciada, com o Sr. Capitão António Tomé Santos. De uma cajadada matava dois coelhos, perdoe-se-me a expressão coloquial, pois ele, simpaticamente, me recebeu e me cedeu alguns dados, dele e, sobretudo, neste caso, do Pai.
Homens arrojados, valentes, corajosos, estes! Verdadeiros heróis!!! Não é que nunca me tinha apercebido que o Sr. Capitão António dos Santos tinha naufragado três vezes, duas delas, seguidas – no Normandie (1941), no Maria da Glória (1942) e no Leopoldina (1947)? Demais para um homem só!... Veleiros algo anacrónicos, de madeira, já antigos, envelhecidos, conduziam a situações destas.
Tive acesso a uma entrevista que o Capitão tinha dado ao jornal Comércio do Porto, a 7 de Novembro de 1934. Já vai distante, mas António dos Santos, à data, já contava uma boa dezena de viagens. Li-a com interesse, achei-a curiosa, enaltecedora dos seus homens, sobretudo, dos de Ílhavo, enternecedora e, espantosamente bem-humorada.
(…) No cais de Massarelos, tendo estado à descarga, o Santa Regina, comandado pelo capitão António dos Santos, oficial sabedor, enérgico, decidido, arcaboiço de lutador dos mares, homem experimentado nas lides da pesca do bacalhau, é na amurada de bombordo do seu navio, que o capitão Santos descreve, com a maior simplicidade, em conversa, a sua viagem deste ano à pesca do fiel amigo (…).
– Têm horas certas de trabalho, os homens?
– Têm, mas, quando é preciso aproveitar a maré, aproveita-se. É para benefício de todos…
– E demais, como é sempre dia… na Gronelândia (…).
Uma faina de mil diabos, esta vida! Ninguém imagina os trabalhos que a gente passa, quando comem, regaladamente, uma posta de bacalhau assado ou um prato de bacalhau à Gomes de Sá…
– As montanhas de gelo são lá frequentes, capitão?
– São, sim, senhor. Os icebergues, frequentes e perigosos (…). Vê acolá aquela racha? – e aponta uma enorme fenda aberta no cobre do casco. Aquilo foi, só, de roçar por um campo de gelo. Uma manobra demorada demais para o evitar.
– E como procurar evitar esse perigo?
– É conforme. Em último recurso, entregamo-nos à Providência – concluiu o capitão – que desta vez, como de tantas outras, foi a nossa boa protectora
– É certo os esquimós visitarem os vossos navios?
– Eu não os vi, pois pesquei a 64 graus. Mas, aos que fundeiam mais para o Norte, a 68 graus, têm aparecido, a trocar peles de animais por aguardente. O meu colega do Viajante 2º, que pescou pelas alturas da ilha de Disko, teve este ano, a bordo, a visita de seis mulheres esquimós.
E, num olhar malicioso, num desabafo de inveja, o capitão rematou:
– Que rico dia de pesca! Uma marésada assim, não a apanha cá o velho…
– É toda de Ílhavo, a tripulação do Santa Regina?
– Não. Trago também homens da Figueira, da Afurada e da Póvoa…
Verdadeiros heróis! – exclamou, entusiasmado e orgulhoso, o capitão. E, depois com desalento, concluiu:
– Heroísmo ainda tão desconhecido e mal avaliado, quando o Mar lhes não abre a sepultura, espera-os uma velhice cheia de necessidades e misérias…
– E nos dias bonançosos e noites serenas, que fazem os seus marinheiros?
O capitão não responde. Fica pensativo, olhos fitos para além da barra. Mas, compreendendo-lhe o seu pensar, ouvimo-lo dizer:
– Nas noites luarentas almas resignadas dedilham a guitarra, a recordar a sua terrinha tão longe adormecida, tantas milhas distante dos seus olhos saudosos… Nas horas vagas de brisa fagueira, ou calmaria podre, dão largas ao seu instinto artístico. E à revessa do castelo da proa, pegam num madeiro, num canivete, modelam um casco, aparelham-no num requinte de gosto e apuro, sem a mínima falta dum pormenor e das suas mãos, cortadas da linha da zagaia, gretadas da salga e dos ventos glaciais, saem essas embarcações miniaturas, verdadeiras maravilhas de arte, que são o pasmo e encanto de quem visita a sala marítima do Museu de Ílhavo.
Estava terminada a visita. Que os trabalhos da descarga exigiam a presença do capitão. E, já na prancha do cais ainda lhe ouvimos dizer, com aquela franqueza rude, característica da gente do mar:
– Apareça mais vezes. Os amigos são sempre bem-vindos.
Um pouco longa para intróito, mas, mesmo assim, foi decepada, quando achado conveniente.
O Sr. Capitão António dos Santos nasceu em Ílhavo em 6 de Janeiro de 1897. Filho de Tomé dos Santos e de Josefa da Silva, casou com a Senhora D. Ermínia Rocha, de quem teve os filhos – Maria Emília Rocha Santos e António Tomé Rocha Santos.
Possuía a cédula marítima 8399 passada pela Capitania do Porto de Aveiro, sem data.
Teria ido cedo para o mar como muitos outros dos seus conterrâneos, pois esse mar, esse mar danado, corria-lhe nas veias.
Consultados os primeiros jornais, em 1928, foi piloto do lugre Vega, que era o Altair e que viria a ser o lugre Vaz, comandado pelo Capitão José Cândido Vaz.
Nas campanhas de 1929 e 30, foi capitão do lugre Ilhavense 2º.
Nos primeiros arquivos marítimos credíveis, coincidentes com os dados desta entrevista, surge o Sr. Capitão António dos Santos, no comando do lugre-escuna Santa Regina, desde 1934 a 1937, inclusive, da praça do Porto. Em 1936 e 37, foi seu piloto, o também ilhavense João Maria da Madalena. Foi o Capitão Santos que levou pela primeira vez, ao mar, o famoso Zé da Pardala, neste lugre-escuna, possivelmente na campanha de 1935. Vide Memórias (1927-1983), de José da Silva Cruz. Edição de Autor, 1986, p. 15 a 24.
 
Nas safras de 1938 a 1941, continuou capitão, mas, agora do lugre-patacho, de madeira, Normandie.
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O lugre-patacho Normandie
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Este foi o navio francês Normandie III, construído em Shelburne, Canadá, adquirido pela Empresa de Pesca de Portugal, Lda., desta vila, em hasta pública, que iniciou a sua actividade em 1935. O ano de 1941 teria sido fatídico para o navio, pois, no dia 30 de Maio, caíra sobre os bancos da Terra Nova, um forte temporal, do qual resultou ter sido varrido ao mar, de bordo do Normandie, o pescador António Francisco Coentrão de 28 anos, natural de Caxinas, Vila do Conde.
Segundo notícia de O Ilhavense de 20 de Setembro de 1941, no dia 7, naufragou, com água aberta, como já referimos, propriedade da Empresa de Pesca de Portugal, Lda., de que era gerente o Sr. Francisco António de Abreu. Comandado pelo experimentado homem do mar, António dos Santos e pilotado por Manuel Machado dos Santos (Praia), estava com o carregamento completo. A tripulação foi toda salva e recolhida a bordo do lugre com motor, de madeira, Ana I que a terá trazido a Aveiro.
Foram também seus pilotos, António dos Santos Labrincha (38), Belarmino Ascenção de Oliveira (39) e José Estêvão da Maia (40).
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Não terão sido excessivas, para uma só pessoa, tantas tormentas, inimagináveis?
No ano seguinte, exactamente o de 1942, em tempos de guerra, aceitou pilotar o lugre Maria da Glória, um pouco mais recente, liderado pelo capitão Sílvio Ramalheira. O Maria da Glória, ex-Portugália, construído na Gafanha da Nazaré em 1921, tomou este nome, na campanha de 1927, então propriedade da Empresa União de Aveiro Lda.
Afundado em 5 de Junho de 1942 por um submarino alemão, em viagem para os Grandes Bancos, constituiu uma das maiores tragédias que assolaram a nossa vila maruja. Dentre os 44 tripulantes, apenas se salvaram 8, em condições sobre-humanas, em dois botes carentes de tudo. E António dos Santos foi um dos que se salvou.
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 O lugre Maria da Glória
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E agora? É caso para perguntar… A fé é que nos salva – pensa o povo e assim pensara o ex-piloto. O susto fora tão grande que, na sua aflição, António dos Santos prometera ir ao Santuário da Nossa Senhora de Fátima, todos os anos, a pé, o que vinha cumprindo desde aquele terrível acontecimento, já lá iam dez anos.
Mas não esmorecera e o apelo do mar e o sustento da família chamavam-no com fervor.
No ano seguinte, na campanha de 1943, tornara-se capitão do lugre de madeira Leopoldina, pertencente à praça da Figueira da Foz. O Leopoldina tinha sido construído em Caminha por A. D. dos Santos Borda, em 1902, e fora propriedade de Manuel Moreira Rato & Filhos, de Lisboa, e de um grupo de sócios figueirenses. Em 1906, tornou-se propriedade da Lusitânia – Companhia Portuguesa de Pesca, então formada.
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 O lugre Leopoldina
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Entre as campanhas de 1943 e 1947 (inclusive), comandara-o o Sr. Capitão António dos Santos, até lhe sentir o peso e o perigo do seu afundamento, com água aberta, no Virgin Rocks, em 1947. Em 1943, pilotara-o Bernardino José G. Barbosa e em 1944, o ilhavense Benjamim dos Santos Marcela, Pardal.
Na campanha de 1948, transferira-se para capitão do lugre com motor Trombetas, da mesma empresa armadora.
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Ainda com forças para enfrentar o mar, António dos Santos embarcou de capitão, na safra de 1949, no lugre de madeira Paços de Brandão, da praça do Porto. Construído na Terra Nova, fora reconstruído em 1923, em Vila Nova de Gaia para a firma Veloso, Pinheiro & Cª., Lda. Acabou por ter o seu fim, com água aberta, em 1951, já sob o comando de João André Alão. Pilotara-o nessa viagem, o ílhavo António Nunes Júnior, o Rão.
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 O lugre Paços de Brandão
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Mais do que com razões para sentir na pele a dureza da vida de mar, o Sr. Capitão António dos Santos, muito estimado por todos os seus colegas, depois de três anos em terra, de recobro, partiu cedo e repentinamente, com 56 anos, em 19 de Outubro de 1953, tendo estado a bandeira do Sindicato dos Oficiais, a meia-haste, durante três dias.
A biografia marítima deste nosso Homem do Mar, quase que se poderia intitular, na senda dos naufrágios… três foram eles, e dois completamente seguidos.
 
Imagens – Arquivo pessoal e gentil cedência do filho

Ílhavo, 20 de Novembro de 2016
 
Ana Maria Lopes
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quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Homens do Mar - Armindo Simões Ré - 26

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Capitão Armindo Simões Ré. 1950
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Sempre conheci as quatro filhas do Sr. Capitão Armindo Simões Ré, mas deram-me, por conselho, que a mais amante das memórias materiais e imateriais do Pai, seria a mais nova, a Arminda, e uma neta, a Fernanda, que reside em Ponta Delgada, na ilha de S. Miguel, Açores.
Estabelecido o contacto telefónico, passou-me a ser mais fácil ir a Ponta Delgada (via virtual) do que, ali, à dita Avenida dos Capitães (onde sobram dois ou três), nº 83-85.
Para além disso, também percebemos, ambas, que o afecto que ela tivera por seu Avô, teria existido comigo, relativamente ao meu. Coisas da vida, no mundo dos afectos…
E tem vantagens, porque a Fernanda é de Física, trabalha no Instituto Português do Mar e da Atmosfera e pode anunciar-me as «trabuzanas», que costumam deslocar-se dos Açores para o Continente.
O Sr. Capitão Armindo Simões Ré nasceu em Ílhavo em 20 de Agosto de 1907. Filho de Alexandre Simões Ré (1880-1967), também oficial da Marinha Mercante, e de Maria Nunes Vidal, casou com a Senhora D. Arlinda da Silva Ré, de quem teve as quatro filhas – a Maria do Rosário, as gémeas Arlinda e Maria e a Arminda.
Possuía a cédula marítima 18175 passada pela capitania do porto de Aveiro, em 20 de Fevereiro de 1923. Já não teria pertencido àquela geração em que iam prematuramente para o mar, mas a filha mais velha contou-me que o pai se referia que, em tempo de crise, teria embarcado como ajudante de cozinheiro, num navio em que o Pai andava. Tudo muito vago, mas daí a justificação para ele ser uma pessoa muito hábil na cozinha.
Teria sido? Talvez… Nada de muito inédito.
Outra referência – através de correspondência que me foi facultada – apercebi-me que em 1928, andou embarcado no lugre Lídia, em serviço comercial, pertença do armador – José Joaquim Gouveia – Parceria Marítima Douro, Porto, entre 1918 e 1935.
Mais uma referência, também vaga – uma fotografia de um navio do comércio, MIRANDELLA, anotada no verso – recordação da entrada em Hamburgo, a 26 de Novembro de 1930.
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O velho lugre de madeira Argus, em 1934
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Bem, desde que tive acesso a fontes credíveis, o Sr. Armindo Ré fez as campanhas de 1933 a 38, no dito Argus velho. Este Argus, lugre de madeira, construído na Inglaterra em 1873 para a Parceria Geral de Pescarias, mais tarde, na firma Veloso, Pinheiro & Ca. Lda., da praça do Porto, passou a ser o Ana Maria. Foi o seu piloto, sob o comando de Francisco da Silva Paião (33, 34, 35 e 36) e Alexandre Simões Ré (37). Passou ao seu comando em 1938, levando como piloto, Alexandre Simões Ré. Inverteram-se os papéis.
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No velhinho lugre de madeira Argus, em 1936
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E passemos ao lugre com motor, de ferro, Creoula, de 1937, o actual NTM, que todos bem conhecemos.
Nas campanhas de 1939 e 40, sob o comando de João Pereira Ramalheira (o Vitorino), Armindo Ré foi o imediato e Alexandre Ré, o piloto.
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No Creoula, numa das viagens de 39 ou 40
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Na imagem anterior, junto à roda do leme, Sílvio Ramalheira seguido de Adolfo Paião; à esquerda, Armindo Ré.
Nas campanhas de 1941 a 43, seguiu-se o Argus, o novo/velho Argus, de ferro, construído na Holanda, em 1939, imortalizado pela obra tripla A Campanha do Argus de Alan Villiers. O trio da oficialidade manteve-se. Em equipa ganhadora não se mexe – diz-se.
Mas o lugre-patacho Gazela Primeiro meteu-se de permeio e Armindo Simões Ré tornou-se capitão deste mítico navio.
Quem não o sente? Está longe, mas foi nosso, e comandado por capitães todos ilhavenses, ílhavos de rija têmpera, que sempre sonharam com o mar longínquo.
Nas safras de 1944 a 48, inclusive, exerceu, pois, o cargo de seu capitão, com o Pai, Alexandre Simões Ré, como imediato.
O Gazela, em 1900, foi completamente reconstruído em Setúbal, no Estaleiro J. M. Mendes, passando a chamar-se Gazela Primeiro. Passou a ser o maior navio da Parceria Geral de Pescarias e, de todos os navios da empresa, o Gazela Primeiro talvez tenha sido o mais famoso.
Em 1969 imobilizou na Azinheira e em 1971 o navio foi vendido ao Philadelphia Museum e mais tarde entregue a um grupo de amigos, que o vão preservando em perfeitas condições de navegabilidade.
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O lugre-patacho Gazela Primeiro
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Estamos perante um caso de fidelidade a uma empresa, até à data (quase de filho e Pai), quando, provavelmente, perante um convite da empresa Brites, Vaz & Irmãos, Lda., da praça de Aveiro, o nosso capitão foi buscar o navio-motor, de ferro, Vaz, à Holanda, onde fora construído, para o começar a comandar na campanha de 1949. E por quantos anos? 1950, 51 …etc., o que, inicialmente pensara, dezasseis campanhas, com mais cinco, noutra ficha biográfica, durante 21 anos. Até 1969. Uma vida de apego e sempre de sobressalto, já que sobre as salsas ondas, de quando em vez, alterosas.
Segundo informação do Jornal de Pescador, de Abril, p. 49 e Maio, p. 9, de 1949, tivemos conhecimento que o Vaz entrara no Tejo, a 19 de Março, onde estivera, embandeirado em arco, pronto para receber individualidades e outras visitas. O Sr. Capitão Armindo Ré, então com 41 anos, um dos mais hábeis e conhecedores capitães da Marinha Mercante nacional, interpelado pela imprensa citada, mostrava-se encantado com o navio, pela modernidade, conforto, velocidade, capacidade e equipamentos. Foi o seu navio. De imediato, nos anos de 1949, 50 e 51, foi Alexandre Simões Ré, que terá terminado, e não era sem tempo, a sua carreira de mar.
Nas restantes viagens, os imediatos ou pilotos, normalmente, não foram de Ílhavo.
O Sr. Capitão Armindo, tendo tido, a bordo, uma infecção no polegar da mão esquerda, originando um panarício, ia-o escaldando em água fervente, até que um dia, a sangue-frio, como a infecção cavalgasse, ele próprio cortou a falangeta do dedo para evitar o pior. Ao chegar ao Gil Eannes, para um tratamento mais cuidado, informaram-no que, se assim não tivesse agido, teria estado sujeito a ter de lhe ser cortada a mão. Meu Deus, até arrepia a coragem e a ousadia com que assim agiu!...
Igualmente através do Jornal de Pescador, de Agosto de 1970, p.9, confirmámos a existência de uma condecoração, que tivemos o prazer de observar.
No Dia da Marinha, a 8 de Julho de 1970, na presença do Almirante Tenreiro, o Ministro da Marinha, Almirante Pereira Crespo, condecorou os capitães-pescadores Armindo Simões Ré, Manuel Machado dos Santos e José de Oliveira Rocha, todos de Ílhavo, com a medalha Vasco da Gama, de criação recente, galardão exclusivamente do mar e cuja atribuição se ligava a feitos ou serviços praticados.
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O navio-motor, de ferro, Vaz
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Foi no Vaz que levara a bordo da Gafanha para Lisboa, a sua esposa e a filhota Arminda e, mais tarde, a neta adorada, Fernanda. Em ambas, permanecem recordações inesquecíveis, que vim avivar com estes Homens do Mar – rememoram a novidade da viagem marítima, o gosto pela convivência a bordo com a tripulação, os seus albaióis (hoje, jardineiras), que as fazia parecer uns pequenos marinheiros a bordo, o conforto do salão de oficiais com as suas caminhas improvisadas com cadeiras e cobertores, o cheiro do pequeno-almoço, servido por moço de casaco branco…
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O Vaz, Cap. Armindo Ré e a neta Fernanda. 1964
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A neta Fernanda reviveu ainda a situação do quarto do avô-pai – assim o tratava –. Recordou três enormes gavetões encimados por uma cama (o seu camarote), seguido da casa de banho e do gabinete médico; sempre em frente e do mesmo lado, a escada para a ponte (algures por ali estavam pendurados uns binóculos e um chapéu de farda).
Recordou ainda que, ao fundo do camarote e a meia parede havia um armário e, à direita e em frente à mesa de refeições, estava uma maravilhosa secretária repleta de objectos interessantes – réguas e esquadros, canetas e lápis, tabelas com números, livros de registo, etc…, com um grande candeeiro e uma cadeira. Lembra-se de ter ficado lá a escrever, a desenhar e a coscuvilhar (aliás, não se recorda que alguma vez o avô a tivesse avisado ou impedido de ver ou mexer nas suas coisas) … Nesse aspecto, teria sido mais como um irmão ou amigo com quem a confiança era máxima.
Gostava muito de ouvir o meu avô-pai – relembra a Fernanda – a explicar coisas do navio, da pesca, do tempo… ele gostava de ensinar e tinha uma paciência infinita… Assim recorda o Avô-Pai, a Fernanda, de além-mar, dos Açores.
Depois de ter deixado o mar, Armindo Ré ficou por terra, entre o carinho da família, alguns bons anos, não sem deixar de ir diariamente à empresa que ultimamente servira, após o que ia encontrar-se com alguns colegas, junto ao Bispo. Manteve esta rotina até à doença não permitir.
Acamado no último ano por problemas respiratórios, achava que seria levado por um navio, para uma viagem bem longínqua, eterna. E assim foi em 19 de Setembro de 1994, com 87 anos.
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Imagens – Arquivo pessoal e gentil cedência de familiares
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Ílhavo, 13 de Novembro de 2016
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Ana Maria Lopes
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domingo, 11 de dezembro de 2016

Homens do Mar - Francisco dos Santos Càlão - 25

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Enquanto ia pesquisando e escrevendo sobre o currículo marítimo do Capitão João Ventura da Cruz, iam-se-me cruzando dados, e não por acaso, com o Capitão Francisco Calão (n. 1897). Não queria deixar de o referenciar, até porque me lembro nitidamente dele, na sua casa encostada à minha, na Costa Nova e, porque, como capitão da Empresa de Pesca de Aveiro, teve um papel fulcral na mudança da pesca do bacalhau à linha para o arrasto lateral. Filho de João Nunes da Barbeira e de Joana Correia, casou com a Senhora D. Maria de Oliveira Mendes, de quem teve três filhos – Maria, David Manuel e Francisco Manuel Mendes Calão, de quem bem me recordo.
Era possuidor da cédula marítima 9511 passada pela capitania do porto de Aveiro, em 22 de Fevereiro de 1911.
Há dias, na Costa Nova, em conversa com o Sr. Cap. Manuel Machado, nos seus vetustos, mas muito lúcidos 90 anos, que havia sido seu piloto, na viagem de 1951, no arrastão São Gonçalinho, veio à baila a sua recordação, bem como a de meu avô, que era seu irmão, de quem se lembrava bem.
Continuando… Ao Jornal do Pescador de Fevereiro de 1952, o capitão Chico testemunhou, à época, que comandava navios bacalhoeiros há 31 anos, tendo sido o lugre de pesca à linha, Águia, pertencente à Companhia Aveirense, o primeiro em que se iniciara, em 1921.
Águia? O nome já me passou pelas mãos… ou pelos olhos… pensara.
O lugre Águia, registado em Aveiro, foi construído na Gafanha da Nazaré, em 1919, por Manuel Maria Bolais Mónica, para a Companhia Aveirense de Navegação e Pesca. Era um lugre com três mastros, de madeira, proa de beque, popa de painel e um pavimento. Mais tarde, pelos anos 20, tendo mudado de dono, passou a ser o Silvina, que já não cheguei a conhecer, pois ardeu na viagem de 1941. A propósito, ver o capítulo O Silvina em Chamas, em Os Grandes Trabalhadores do Mar de Jorge Simões, última edição, p. 103 a 113.
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O lugre Águia. 1919
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Quem procura sempre alcança e nas buscas habituais, mas intensas, lá descobri que comandara, na safra de 1934, o Rosita, da praça do Porto. Era o ex-lugre, de madeira, Edith M. Cavell, construído em Melburne, propriedade de Copérnico da Conceição da Rocha, de Ílhavo. Participou nas campanhas de 1930 a 1934. Será que o Sr. Capitão Chico o comandara nestes quatro anos (1930, 31, 32 e 33)? Falta de dados seguros não nos permite concluir isso. Como ainda me lembro do Sr. Copérnico e sua Esposa em curtas estadias e visitas que faziam à família Rocha, no Alto Bandeira - irmão de Conceição e Rosa Rocha, tio de Maria da Conceição Rocha Mano e de José (Zeca) Mano.
Na campanha de 1935, no dia 12 de Julho, quando comandava o lugre Santa Joana (um dos quatro Santas que tivera pescado pela primeira vez, na Groenlândia, em 1931), fora abalroado por um navio de pesca norueguês, na Groenlândia, conforme protesto existente no Ciemar. Pilotava-o o Sr. Manuel Gonçalves Viana.
O Capitão Chico, como carinhosamente era tratado, fizera as safras de 1936 e de 37, no comando do lugre com motor Santa Izabel, igualmente pertencente à EPA. Voltou a ser seu piloto Manuel Gonçalves Viana.
O capitão Francisco Calão, na sua possante estatura de 1, 80 de altura, corpulento, foi um verdadeiro lobo-do-mar. À sua valentia e arrojo, aliava uma competência reconhecida e comprovada por todos os seus colegas e por tantos actos temerários durante a sua já longa vida de marinheiro. Era desejado por diversos armadores, mas, como a sua biografia marítima o comprovou, não gostava de saltar e, por isso, se manteve a servir a mesma casa – neste caso, a Empresa de Pesca de Aveiro, conhecida pela empresa do Sr. Egas Salgueiro ou até do Egas.
No ano de 1938, deu-se a grande viragem na sua vida e deixou a pesca à linha do bacalhau para se entregar, de alma e coração, ao comando do único, à data, arrastão clássico, o então recente Santa Joana, onde se conservou até 1946 (inclusive).
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Pesca de arrasto lateral
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Durante estes anos, foram seus imediatos, os ilhavenses Manuel Pereira da Bela (1938), António Trindade da Silva Paião (39), Manuel Gonçalves Viana (40), Jacob de Oliveira Mendes (1941 a 45) e João Laruncho de São Marcos (1946) e pilotos, José Nunes de Oliveira (38), Manuel Gonçalves Viana (1939), João Simões Ré (40), Manuel de Oliveira Júnior, de alcunha Bernardo (1942 e 43), José Pelicas Gonçalves Bilelo (46) e praticante de piloto, David Manuel Calão (46). O arrastão Santa Joana fez duas viagens nos anos de 1938, 1939, 1944, 1945 e 1946 e uma, nos anos sobrantes (40, 41, 42 e 43).
Na segunda viagem de 1946, o Capitão Chico ficou em terra para prestar assistência à construção do São Gonçalinho, mandado construir igualmente pela Empresa de Pesca de Aveiro, nos Estaleiros Navais de Viana do Castelo.
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A bordo, com a autoridade…
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Foi também ele que, em 1947, foi buscar a Inglaterra os caça-submarinos Killdary e Killmalcom que, depois de transformados em atuneiros com os nomes de Rio Vouga e Rio Águeda, viriam a aumentar e enriquecer a frota da referida empresa, com esta nova modalidade de pesca.
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Em 1948, estreou como capitão o citado arrastão São Gonçalinho, que comandou até 1953, com algumas interrupções, devido à doença que o traiu e contra a qual tanto lutou.
Foram seus imediatos, no São Gonçalinho, os ilhavenses José de Oliveira Rocha (48, 49, 50), José Simões Negócio (51), Manuel Gonçalves da Silva, de alcunha Paroleiro, (52, 53), e pilotos, Francisco Correia Marques (49 e 50), Manuel Marques Machado (51), e Juvenal Carlos Filipe Fernandes (52 e 53) da Gafanha da Nazaré.
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O arrastão São Gonçalinho
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O arrastão São Gonçalinho fez duas viagens nos anos de 1949, 50, 52 e 53 e uma, nos anos sobrantes (1948 e 51).
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À esquerda, José Rocha e Francisco Calão, a meio
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À saída do Tejo, a 27 de Fevereiro de 1952, no São Gonçalinho, mal diria o «nosso capitão» que a caminho dos bancos, por altura dos Açores, seria acometido por doença grave que exigiria uma arribada ao porto de Ponta Delgada e o seu regresso urgente, por avião, à Metrópole, para ser intervencionado. Terá sido o começo do fim, que se arrastou ainda por uns péssimos anos. Informada a empresa armadora, o navio seguiu viagem, logo que possível, sob o comando do Sr. António Augusto Marques, de alcunha, o Marcela.
A vida não parou, nunca pára, mas afrouxou, de algum modo. O estado físico e emocional deste grande lobo-do-mar fora abalado.
Mas, com a sua coragem e luta contra a doença, retomou o comando na 1 ª viagem de 1953 do «seu» arrastão.
O estado de saúde agravara-se e teve de ser internado num hospital, em St. Jonh´s. Segundo o jornal local de 10 de Agosto de 1953, de regresso da Terra Nova, onde deu entrada numa casa de saúde para lhe ser amputada uma perna, chegou a Ílhavo o nosso amigo e conterrâneo Francisco dos Santos Calão que ali demorou até lhe poder ser aplicado um aparelho ortopédico, que lhe permitisse andar regularmente.
Fora o Capitão Manuel Gonçalves da Silva, Paroleiro, que era o imediato, que lhe sucedera, na viagem.
Encerrara-se, deste modo, a vida marítima deste arrojado homem do mar, minado pela diabetes, embora só nos tivesse deixado, a 7 de Novembro de 1961, com 64 anos de idade e sobrecarregado pelo peso do sofrimento e da amargura.
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Imagens – Arquivo pessoal e gentil cedência de familiar
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Ílhavo, 8 de Novembro de 2016
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Ana Maria Lopes
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domingo, 27 de novembro de 2016

Homens do Mar - João Ventura da Cruz - 24


João Ventura da Cruz, no ponto nevrálgico do navio
Tem-me sido extremamente difícil conseguir algumas fotografias de João Ventura da Cruz, bem como os dados básicos da sua biografia marítima, pois a sua ficha do grémio apenas refere que comandou o lugre com motor  Santa Izabel, construído em 1929 por Manuel Maria Bolais Mónica para a Empresa de Pesca de Aveiro, nos anos  de 1938, 39, 40 e 42. Ora sabemos que os seus feitos foram muito mais.
Tentemos explicitar.
O Sr. João Ventura da Cruz, natural de Ílhavo, nasceu em 1880. Casado com Ascensão Ricoca, foram pais de uma abundante prole, que ainda conheci, uns, bem melhor que outros – Maria, Aníbal, Ascensão, João Cândido, Manuel e Nídia Ventura da Cruz. Este ano, no Verão, mais uma foto surgiu, na casa da Costa Nova, com a sua prole. E curiosa, pois representa o capitão, de boné (5º), e, da esquerda para a direita, sua esposa Ascensão (3ª), e seus filhos, Aníbal (1º), Ascensão (2ª), Manuel (4º), João Cândido (6º) e Maria (7ª). Falta a Nídia, a mais nova.
Que sorte! Estava datada – 1935 – e identificado o navio – lugre com motor Santa Mafalda. Tudo conferia.
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A bordo do lugre Santa Mafalda, com a sua prole, em Lisboa.1935
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Perante os primeiros dados credíveis, lancei o isco e pesquei que fora capitão, nos anos de 1922 e 24, no lugre Argonauta II, de 1925 e 26, no lugre Alcion, e de 1928 e 29, no lugre Celestina Duarte, todos da praça de Aveiro, pilotado, respectivamente, por João dos Santos Marnoto (26 e 28) e Manuel Pereira da Bela (29).
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O lugre Argonauta II, de três mastros, proa de beque e popa redonda, foi construído por Manuel de Matos Mónica, na Gafanha da Nazaré, em 1919, para a Sociedade Argonauta, Lda., de Aveiro. O navio foi vendido em 1927 à Empresa de Navegação Portugal e Américas, do Porto, alterando o nome para Celestina Duarte, porém, conservando a matrícula em Aveiro. Naufragou nos rochedos exteriores do porto de Leixões, em Fevereiro de 1933, em que faleceu o capitão ilhavense Paulo Nunes Bagão, já septuagenário. Do lugre Alcion, soube que teve a sua origem no lugre-escuna Figueira, construído em Inglaterra em 1904, tendo sido o ex-Becca and Mary, até 1913, então registado, na Figueira da Foz. Posteriormente, foi vendido ao capitão de Ílhavo, António José dos Santos, de alcunha Rocheiro, tendo sido registado em Aveiro, passando a ser o Alcion, em 1920.
Na campanha de 1930, comandou o lugre Bretanha, pilotado por Manuel Pereira da Bela, nosso patrício.
Anos de forte crise económica. Lugres amarrados. E os armadores, se não viessem a ter melhores resultados, prometiam deixar os lugres ancorados a apodrecer.
Entretanto, conta-se que, tendo encontrado, casualmente, o rude e destemido Capitão João Pereira Cajeira, o Sr. Egas Salgueiro, armador empreendedor, lhe fez saber que os navios de pesca dinamarqueses e faroés, nos bancos da Groenlândia, faziam muito boas pescas. E logo o contratou, para chefiar o lugre Santa Mafalda, com a condição de ir pescar, sigilosamente, nesse ano, à Groenlândia. Entregue aos seus parcos conhecimentos, o Cajeira, com a preocupação de cumprir o que havia prometido, lá foi meter-se nos terríveis gelos e medonhos campos de gelo, onde se viu perdido e amedrontado pela situação.
Não chegou propriamente a pescar – muitos receios, temores e perigos, dissuadiram-no, naquele ano, mas não perdeu a ideia de lá voltar. De regresso, o capitão Cajeira dá uma longa entrevista ao jornal Beira-Mar, de 30/11/1930. Frio inclemente, cortante, bizarros e gigantescos icebergs, lindíssimas auroras boreais, riscos de se perderem, fizeram-no regressar.
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Gigantesco e medonho iceberg…
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Um pescador disse referindo-se aos mares da Groenlândia: – Eh! Sinhor Capitão! Aquele mar não tem passage! Aquilo era tudo fechado que até metia medo…
O capitão Cajeira sorridente e pensativo parecia recordar a acidentada viagem que, pelos perigos de que foi cercada, nos faz lembrar as antigas viagens dos navegadores de antanho.
Naqueles anos trinta de profunda depressão e crise económica, tudo corria mal e a situação da Empresa de Pesca de Aveiro tornara-se insustentável e os três principais sócios da EPA reuniram-se com os três capitães Manuel dos Santos Labrincha (1880-1954) do lugre com motor Santa Izabel, João Pereira Cajeira (1879-1958) do Santa Mafalda e João Ventura da Cruz (1880-1970) do Santa Joana a quem contaram a verdade nua e crua – estes comprometeram-se a ir pescar à Groenlândia, de modo a que fosse conseguido o dinheiro suficiente para pôr os navios no mar.
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E cá está o nosso capitão João Ventura da Cruz envolvido, com sua palavra e temeridade, na questão.

Sigilosamente, assim foram, pois o segredo é a alma do negócio – era o lema do Sr. Egas.
A eles se juntou o Capitão Aquiles Bilelo, de que já falámos, por convite do amigo Cajeira, a quem prometeu reboque, já que o seu navio, o Santa Luzia, tinha menos capacidades que os outros. Há alguns, poucos, relatos deste heróico feito, embora com ligeiras discrepâncias.
Com a falta de comunicações habituais para a época, mais cedo do que habitual, na Costa Nova, vislumbra-se: Navio à vista!... Navio à vista!...
É este…
É aquele…
Quando, mais cedo que o habitual, os quatro lugres, que pescaram nos bancos da Gronelândia, chegaram a Portugal e demandaram os seus portos de armamento, houve grande alvoroço e muito regozijo entre as classes ligadas às actividades piscatórias. É que, de todos os veleiros que, nesse ano de 1931, foram à pesca do bacalhau, apenas aqueles quatro conseguiram carregamentos completos.
É bom pois, que sejam sempre lembrados aqueles quatro arrojados Capitães de Ílhavo, seus pilotos – Joaquim Fernandes Agualuza (1901-1983), piloto do lugre Santa Izabel, João Fernandes Matias Júnior, Britaldo (1901-1959), do Santa Mafalda, João dos Santos Labrincha (Laruncho) (1901-1980), do Santa Joana, José Vaz Mano (1904-1980), do Santa Luzia – e suas destemidas tripulações.
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Mas as fainas marítimas de João da Cruz não ficaram por aqui. Creio que no ano de 1932, continuou a comandar o lugre Santa Joana, pilotado por João dos Santos Labrincha (Laruncho). Nos anos seguintes de 33 a 35, passou a comandar o lugre Santa Mafalda da mesma empresa, pilotado por Manuel Fernandes Matias em 1933.
Neste mesmo ano, segundo informação do jornal local, o Santa Mafalda entrou em fins de Setembro, na barra de Leixões. Trazia um carregamento completo de bacalhau, mas a viagem é que fora muito acidentada, sofrendo a perda de dois tripulantes – um na Gronelândia, a 17 de Julho, de Ílhavo, em virtude de se lhe ter virado o dóri em que pescava e outro, a 11 da de Setembro, quando, em viagem, o lugre foi apanhado por um temporal que lhe varreu o convés, um pescador da Fuzeta. Vidas sofridas e tempos muito duros, que impunham respeito a qualquer um.
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O lugre Santa Mafalda
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Entretanto, na safra de 1936, com duas viagens, João Ventura da Cruz estreou no comando o primeiro arrastão lateral português mandado construir pela EPA, na Dinamarca, em 1935, adaptado às necessidades dos mares frios do bacalhau, a que deu o nome de Santa Joana. Levava a bordo, além dos 60 tripulantes, mais alguns pescadores franceses e um maquinista alemão (Fritz Bruck), como monitores. Foi seu imediato Manuel Pereira da Bela e piloto Manuel José Fernandes, da Gafanha da Nazaré. No ano de 37 (com uma viagem), o imediato continuou o mesmo, o piloto foi João Pereira Gateira e o praticante de piloto Benjamim dos Santos (Pardal).
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O arrastão de pesca lateral Santa Joana
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De novo, passou para a pesca à linha, comandando o lugre Santa Izabel, da EPA, de 1938 até 42 (inclusive). Em plena campanha de 41, o navio foi vendido à Empresa Bacalhau de Portugal, Lda., com sede em Lisboa. Foram seus pilotos os ilhavenses Manuel Gonçalves Viana (38), Manuel Pereira Bela (39), João Nunes de Oliveira (40) e José Simões Bixirão (Ponche) (41 e 42). Imediato, José Simões Bixirão (Ponche), na campanha de 40.
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O lugre Santa Izabel

O nosso capitão, a partir de 1942, não aparece nas listas de tripulação, tendo-se, certamente, aposentado.
E nascido em 1880, deixou-nos o decano, à época, dos oficiais da marinha mercante, em 1970, com noventa anos de idade.
Que elogios tecer a um homem do mar como este?
Experimentado, arrojado e prático, chefe de família exemplar era venerado e respeitado por todos que com ele trataram.
Capitão experiente de diversos lugres bacalhoeiros (dos quatro primeiros a pescar na Groenlândia) e oficial debutante do primeiro arrastão de pesca lateral, em 1936, fica para a história dos nossos heróis, bravos e destemidos marinheiros, em mares longínquos com que sempre sonharam. Mares planos e estanhados, mares revoltos e mares gelados, convés varrido por gigantescas ondas, era este o cenário com que se habituaram a conviver.
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Imagens – Arquivo pessoal e gentil cedência da neta Teresa Cachim
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Ílhavo, 30 de Outubro de 2016
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Ana Maria Lopes