quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Homens do Mar - Mário Paulo do Bem - 15

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Na casa das máquinas do n/m Vimieiro. 1959
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Nestas notas biográficas, desta vez, vem à liça Mário Paulo do Bem, também conhecido por Mário Agualuza, por sua mãe se chamar Maria Agualuza Lau.. Ultrapassam-se, por vezes, umas relativamente a outras, das possíveis, só porque o material consegue chegar-me às mãos com mais facilidade. Sobretudo, o empréstimo de imagens, que, quando existem, não estão assim muito à mão, entre caixas, sótãos e baús. Mas, várias notas biográficas estão «na carreira». Um dia chegarão a bom porto.
Mário Paulo do Bem, natural de Ílhavo, nasceu a 16 de Agosto de 1907 e deixou-nos em 20 de Outubro de 1976.
Morador na dita Avenida dos Capitães, foi casado com a senhora D. Maria Fernandes Carlota do Bem, de quem teve três filhos, todos do meu conhecimento. Foi a Alcina Paula que me teve a gentileza de me emprestar algumas das últimas imagens e outras foram-me aparecendo, sei lá, noutros conjuntos de homens do mar em que se integrava.
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Encontro os seus primeiros registos de viagem, sendo possuidor da cédula marítima nº 17.045, passada pela capitania de Aveiro, em 1921, nas campanhas de 1936 e 37, no lugre-motor Cruz de Malta, sob o comando do meu Avô, Manuel Simões da Barbeira, de alcunha, Pisco. Destinos cruzados, com idades diferentes.
Pilotou de seguida, nas campanhas de 1938 a 42, o lugre-motor Labrador, ex-navio dinamarquês Lydia, construído em 1919, sob o comando de António Simões Picado.

A bordo do lugre Patriotismo, no Porto

Na imagem anterior, que me fascina, da esquerda para a direita, identificamos o capitão Jorge Trólaró do lugre Patriotismo, pelo final dos anos 30, Mário Paulo do Bem e António Simões Picado, respectivamente imediato e capitão do lugre Labrador, todos de Ílhavo.

A bordo do Labrador…

Sentado no convés, Eduardo Santos Labrincha, no albói, à esquerda, José Marques de Oliveira e Mário Paulo do Bem, piloto, à direita, com a bóia sobre os joelhos. De pé, o cozinheiro.
E ascendeu ao posto de capitão, nas viagens de 1943 e 44, no Neptuno 2º, lugre-patacho de madeira, construído em Vila do Conde, em 1873, reconstruído em 1926, por Manuel Maria Bolais Mónica, e armado em lugre, tendo feito a última campanha ao serviço da Parceria Geral de Pescarias, no ano de 1938. Quando foi comprado pela Empresa de Pesca de Portugal, Lda., de Ílhavo, da gerência de Francisco Abreu, para a campanha de 1939, passou a chamar-se Neptuno Segundo. Foi seu piloto na campanha de 44, Manuel de Oliveira Vidal Júnior, de Ílhavo, com quem voltaria a cruzar-se nestas andanças marítimas.
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Na campanha de 1945 seguida da de 46, teve o grato prazer de estrear o elegante e gracioso lugre-motor Maria Frederico, construído na Gafanha da Nazaré por António Pereira da Silva, também para a Empresa de Pesca de Portugal, Lda., de Ílhavo, com seca na Malhada, a antiga «seca do Abreu». Foi, de novo, seu piloto em ambas as campanhas, Manuel de Oliveira Vidal Júnior.
 
O Maria Frederico, em dia de bota-abaixo. Dezembro de 1944.

Em 1947, comandou o esbelto lugre com motor Groenlândia, ex-Viana, ex-lugre-escuna Groenlândia, reconstruído nos estaleiros de António Mónica, em 1940, para Armazéns José Luís da Costa & Cª Lda, cujo imediato era Joaquim Martins da Rocha, de Lagos. Em 1941, este lugre levou a bordo o jornalista Jorge Simões que viria a escrever Os Grandes Trabalhadores do Mar.

O Groenlândia em dia de bota-abaixo. 1940
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Comandou o lugre com motor, de madeira, Viriato, construído na Gafanha da Nazaré, em 1945, construído por Alberto Matos Mónica também para Armazéns José Luís Costa & Cª, Lda., com sede em Lisboa, durante as campanhas de 1948 até 1955 (inclusive). Nestes oito anos, foram diversos os imediatos que trabalharam com ele, tendo sido de Ílhavo, João Nunes de Oliveira (Codim), António Remígio Sacramento Teiga e Carlos Alberto Pereira da Bela.

Volta de mar no Viriato. Sd.

Nas campanhas de 1956, 57 e 58, comandou o Sernache, navio-motor, de ferro, construído na Holanda em 1948, para mesma empresa do Viriato. Foi sempre seu imediato, durante estes anos, Armando Gonçalo Nogueira, de Lisboa.
Na viagem de 1959, teve o prazer de estrear como capitão o navio-motor Vimieiro, construído nos Estaleiros de São Jacinto, de novo, para Armazéns José Luís Costa & Cª, Lda., com sede em Lisboa. Foi seu imediato João Augusto Ramos, da Gafanha da Nazaré e piloto João Sílvio Serrano Matias, de Ílhavo.
Os pilotos foram, respectivamente, Amândio Manuel da Rocha Pinguelo, de Ílhavo, Américo de Oliveira Nunes da Matta, de Lisboa e Manuel Seiça Filipe, de Ílhavo.
 
No Vimieiro, em dia festivo, no Tejo. 1959

Durante o ano de 1960, não foi à pesca.
Durante os anos de 1961 a 1965 (inclusive), comandou o Oliveirense, lugre-motor construído na Gafanha da Nazaré por António Bolais Mónica, em 1938 para a Empresa de Pesca do Bacalhau do Porto, Lda. Gémeo do Delães, na campanha de 1942, passou para a propriedade da SNAB.
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O Oliveirense, em Lisboa. 1950

No jornal da nossa terra de 10.8.1965, chegou a notícia de se ter incendiado nos Bancos da Terra Nova o lugre-motor Oliveirense, pertencente à Sociedade Nacional de Armadores do Bacalhau, sendo capitão Mário Paulo do Bem e, imediato, Manuel dos Santos Malaquias de Ílhavo. A tripulação, constituída por 52 pessoas, foi salva pelo n/m São Jorge e ter-se-á, deslocado, ao tempo, de avião para Portugal.
Em 1966 o nosso Capitão Mário comandou o Elisabeth, em 1967 e 1968 foi imediato do n/m São Jorge e em 1969 comandou o navio de comércio Julieta, com bandeira do Panamá, da Sociedade de Navegação Baltir, da gerência de Francisco de Abreu. O navio em 1970 ficou arrestado em Espanha.
Mais uma vida completamente cheia de mar, vivida no mar, muito longe dos seus familiares, acabando por viver em terra, no fim da vida, uma meia dúzia de anos. Era, assim a vida dos capitães ilhavenses.
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Fotografias – Arquivo pessoal e gentil cedência da Família do Capitão
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Costa Nova, 21 de Julho de 2016
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Ana Maria Lopes
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sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Homens do Mar - João Zagalo, um «doryman» aguerrido - 14

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Recorda o leme e o Novos Mares
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Há uma boa meia dúzia de anos, marquei um encontro na seca com João Teixeira Filipe, homem de boa têmpera, trabalhador e fiel à empresa para que trabalhou, durante 59 anos, desde 1943 até 2002.
João Zagalo (de alcunha), seu nome de guerra, nasceu na Gafanha da Nazaré, concelho de Ílhavo, a 28 de Agosto de 1924. Foi no início e crepúsculo da vida, carpinteiro naval, mas, no seu auge, foi um grande pescador do bacalhau, um audacioso, sabedor e afortunado homem do dóri. Tinha um certo orgulho nas categorias que teve a bordo e no apreço que capitães, colegas e empresa nutriam por ele.
Na vida do mar, teve sustos… era inevitável, mas talvez nenhum daqueles que marcam para toda a vida… Concordou com o facto de a pesca à linha ter sido uma profissão árdua, muito dura e perigosa, mas demonstrou saudades do mar, sobretudo do da Groenlândia, pelo muito peixe que lá se pescava e pelo tempo que lá fazia… – recordou.
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Começou, na adolescência, a aprender a arte de carpinteiro naval nos Estaleiros Mónica.
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Numa ocasião, o lugre Cruz de Malta estava em frente à empresa, virado à querena, para levar uma nova roda de proa, pois precisava substituída. O jovem Zagalo veio trabalhar para o navio, ao serviço do estaleiro, mas a vida do mar atraía-o e, assim, mudando para a carpintaria da seca, tinha a possibilidade de vir a embarcar. Ele e o Sr. António Cunha entraram em «acordo de cavalheiros», como era normal. E o João Zagalo veio trabalhar para a primitiva carpintaria da empresa com o saudoso Zé Vicente.
Mas o apelo do mar era mais forte. E o seu sonho cumpriu-se.
 
Novos Mares, na Groenlândia, em 1938
 
Em 1947, embarcou de moço no Novos Mares, lugre de quatro mastros, a que ele passou a chamar o seu navio; mas, no ano seguinte, já foi de verde (pescador que ia à pesca pela primeira vez), no mesmo navio e pescador maduro, especial, especial A, de aí por diante, até 1955.
De 1956 a 58, passou para o n/m São Jorge, que estreou e de que eu fui «madrinha», o que muito me marcou, pela positiva.

São Jorge, depois de ter descido a carreira
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De 1959 a 74 (inclusive), embarcou sempre no novo n/m Novos Mares, onde foi um óptimo e audacioso pescador. Nos serviços de bordo, como escalador, orientava a escala, tratando também cuidadosamente de todos os derivados: caras, línguas, samos e lombos.
Em viagem, no caso do n/m Novos Mares, fazia quarto com o Capitão, Sr. António Pascoal.
De moço, passou a verde e de verde a pescador especial (aquele cuja pesca ultrapassa os 200 quintais), estando sempre na categoria dos melhores pescadores do navio.
Depois da difícil viagem de 1974 e das greves de então, estava na altura de ficar em terra e aí, pela década de 90, muito contactei com ele, enquanto ia fazendo uns biscates na carpintaria, até 2002, ano em que se aposentou.
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Em conversa, recordou alguns episódios de bordo.
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A melhor viagem que fiz foi no São Jorge (ali pelo ano de 57) e foi mesmo a melhor do navio e a mais curta. Largámos a 31 de Agosto, viemos directos da Groenlândia e ainda fomos à feira de S. Mateus, em Setembro, em Viseu.
Era um bom navio. Dormia no beliche, à ré, e não fazia nenhuma «ringedeira» (barulho que os navios de madeira quase sempre faziam).
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Contou-me outra história, que lhe deixou saudades, passada em Agosto, na Groenlândia, no Novos Mares, com o Capitão Pascoal.
O navio deu uma emposta (mudou de sítio) para arriar mais cedo. Deu uma pesquisadela.
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Disse o Capitão:
– Para fora, não tem nada. Ide para o lado de terra!
 – «Vamos à vida, com Deus, vamos arriar!» – ordem do Capitão.
E a manobra do arriar começou.
Mostrou muito orgulho em ter sido chasman (presumivelmente corruptela do inglês lastman), pois orientava, com outro camarada, a manobra de arriar.
Deduzi que o chasman era o dono do último bote do cimo da pilha, que não se desarmava. Tinha de ser um homem responsável, com jeito, traquejo e muita prática. Havia um chasman em cada pilha, que ajudava a arriar e a içar os botes e era sempre o último a partir para a pesca, depois de ter orientado estas lidas.
Depois de ter botado as mãos no peitilho do avental para as aquecer, já que não trabalhava de luvas, – confessou-me – remei de cu p’rà ré e fui p’ra fora, para estar mais desempachado (livre, disponível).
Depois de ter largado o trole e quando o grampolim chegou ao fundo, começou a sentir bacalhau na linha do grampolim. Era muito bom sinal!

No meu dóri, era eu o capitão…recordava
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Recordou que acabara de largar, comera o pequeno-almoço que levava no foquim (peixe frito, pão e azeitonas), deixou passar uma hora e, em cada anzol, um bacalhau. Confessou-me que carregara até ao bico do bote.
Ainda carregou outro bote, mas, à terceira vez, já não deu nada.
Era peixe a meia água, que passou e não voltou. Assim acontecia tantas vezes! – reviveu.
Este relato mostra a instabilidade, a precariedade e incerteza desta vida.
Mas o João Zagalo não o esqueceu.
Trabalhou com os capitães João dos Santos Labrincha (Laruncho), de 1947 a 49 e de 1956 a 58, José Simões Bixirão (Ponche), de 1950 a 55, Weber Manuel Marques Bela, em 1959 e 60 e António de Morais Pascoal, de 1961 a 1974.
Recordou alguns camaradas de faina, tal como o Manuel Pinto (1923-2004), de Ílhavo, contramestre, também muito bom pescador e trabalhador fiel da casa, para a qual foi fazendo uns trabalhos específicos de marinharia, quase até ao fim dos seus dias.
Senti que, longe de aborrecer o João Zagalo, consegui proporcionar-lhe uma tarde agradável, cheia de recordações, duras recordações, mas, para ele, compensadoras.
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Foi com enorme orgulho que a Confraria Gastronómica do Bacalhau prestou a simples homenagem a este Lobo do Mar, em Janeiro de 2011, de o tornar Confrade de Honra, representando, pois, tantos outros que passaram anonimamente pela Faina Maior e ajudaram a escrever páginas da história deste concelho marinheiro e de Portugal. Terminou os seus dias em 10 de Dezembro de 2014.
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Fotografias – Arquivo pessoal da autora
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Ílhavo, 25 de Maio de 2016
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Ana Maria Lopes
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domingo, 24 de julho de 2016

«Nómadas do Oceano» de Valdemar Aveiro

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Nómadas do Oceano – O último livro do Sr. Capitão Valdemar Aveiro dado ao prelo pela Âncora Editora, depois da sua apresentação no Museu Marítimo de Ílhavo, li-o de um trago, bebi-o sofregamente.
Parabéns, caro Capitão Valdemar! Estive mesmo para lhe telefonar a felicitá-lo depois da leitura do seu livro. Mas, achei que era um abuso e não o fiz.
Apreciei-o extremamente, talvez porque os assuntos que nele trata, me estão mais próximos – o papel dos armadores, sobretudo dos mais empreendedores, a citação de navios que me foram familiares – Hortense, Neptuno, Gazela Primeiro, o Santa Izabel, o Santa Joana, alguns arrastões de popa –, pessoas que bem conheci e a própria criação em 1934 da Comissão Reguladora do Comércio de Bacalhau (CRCB) e, em 1935, do Grémio dos Armadores de Navios de Pesca de Bacalhau, (GANPB).
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Mas a maneira fluida e desassombrada com que «discursa» sobre tudo, deixou-me estupefacta, numa prosa líquida, espontânea e vivida.
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A tal questão do «tempo novo» tratada sem tabus, a questão dos armadores, pelo menos dos mais empreendedores, prenderam-me. Mas a localização dos navios no cais de St. John’s, aquando de ciclone anunciado, dadas as vantagens e desvantagens da tal localização e a ida ao «fashion store» foram registos que li de um trago.
A questão da compra das maquillages, do rimel, do blush, do pó de arroz, do baton, ah, ah, e a prova dos soutiens fizeram-me rir, sozinha, quando dei por mim. E pensei – olha, olha, o que o Sr. Capitão Valdemar sabe!...
Aqueles encontros, as travessias de barco, os códigos entre rapaziada, oficialidade e as «mulheres de ocasião», ou derriços de anos anteriores saem-lhe com uma fluidez estonteante. Muito mais haveria que dizer, mas fico-me por aqui... Só não sei onde é que o Sr. Capitão aprendeu tanta mitologia grega!... Parabéns, caro Capitão!
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Costa Nova, 23 de Julho de 2016
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Ana Maria Lopes
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quarta-feira, 20 de julho de 2016

Homens do Mar - António Augusto Marques - 13

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Na amurada do arrastão João Álvares Fagundes

Tendo bom relacionamento com o Sr. Capitão Manuel Machado, andava, de dia em dia, para lhe parar à porta de casa da Costa Nova, para ver como «andávamos de espólio de bacalhau».
Muito francamente, associava sempre o nome do Sr. Capitão Manuel Machado ao comando do navio-motor Avé-Maria, durante muitos anos. Tinha a certeza.
Numa tarde soalheira da semana passada, decidi e parei mesmo. Recebeu-me com a amabilidade que lhe é habitual, e com belíssima vista para a ria, lá fomos conversando. Com quem teve mesmo a experiência de pesca, aprende-se sempre muito. Enquanto esperava por ele, ia-me deliciando com a decoração da sala e vendo se em molduras de mesa ou de parede haveria alguma imagem que me interessasse para o efeito.
Algo se havia de conseguir, com calma, já que o seu álbum pessoal já não estava em sua posse.
Mas, ao dar de caras com uma fotografia do lugre Milena e, com espanto, perguntei:
 – Tem aqui uma foto do Milena e, pelo que sei, o Sr. Capitão não andou no Milena.
 – Ah, do Milena, navio americano «Burkeland» construído na Florida em 1918, depois de ter sido adquirido em Génova pela Indústria de Pesca, Lda., foi o meu pai o seu primeiro capitão, na campanha de 1936. O assunto não me era estranho, mas não o conhecia assim com tanto pormenor. Despertou-me interesse e o entusiasmo apoderou-se de mim.
Mas, e fotografias «novas» – pensei de mim para mim – do seu capitão??????? Começo sempre por aí.
De início, não foi fácil, mas as perspectivas alargaram-se, tomei vários rumos e vir-me-iam ter às mãos, fotos que me seduziram e que abriram novas perspectivas.
Segundo companheiros do mesmo ofício, oficiais, o Milena era um lugre com motor, de madeira, com quatro mastros, não um mimo de lugre, mas pesadão, de borda alta, muito trabalhoso para a pesca e difícil de carregar. Mas, apesar disso, criou muitos afectos.

Naufragou por água aberta no Virgin Rocks na campanha de 1958. Dizia anos mais tarde, com a sua piada fina, o Capitão Joaquim Manuel Pereira da Bela, que durante alguns anos comandou o navio: – Só consegui um carregamento completo – 11.394 quintais –, quando ele se encheu de água e foi ao fundo.
António Augusto Marques, de alcunha Marcela, natural de Ílhavo, (1899-1977), viveu, aqui, na Rua João de Deus, lá para os lados do Oitão.
Casado com a Senhora D. Ofélia Marques Machado, teve três filhos, naturalmente, mais velhos do que eu, mas com quem mantenho um afável relacionamento.
Ora, deixemos os entretantos e passemos aos dados biográficos marítimos, que conseguimos «pescar». A sua sedução pelo mar, a admiração pelos veleiros, suponho que terá sido uma tendência natural dos «meninos» do seu tempo, que embarcavam com algum parente ou familiar mais chegado, tendo-se tornado, posteriormente, numa necessidade de trabalho e numa fonte rendimento.
Portador da cédula marítima nº 10489, passada em 1913 pela capitania de Aveiro, na década de 20, já me surgiu como piloto, sob o comando do Sr. José Bola, em 1929, do lugre Amisade, que foi construído na Murraceira por António Maria Mónica, em 1921, para Sociedade de Pesca Amizade, Lda., Figueira da Foz.
Com uma tripulação de 31 tripulantes, não tinha motor auxiliar.
Vendido à Empresa de Navegação Amizade, Lda., de Faro, em 1940, alterou o registo para Faro e mudou o nome para Amizade Primeiro.

O lugre Amizade Primeiro, sem mastaréus, em Leixões
Imagem Fotomar

A informação da década de 30 já é mais abundante, admitindo que na pesca do bacalhau se vivia uma época de crise. Comandou em 1934 os lugres Júlia I e em 1935, o Leopoldina, ambos com instalações de secagem na Figueira da Foz. As fotos com pessoas a bordo dos navios exacerbam-lhes a alma que eles já têm. Possivelmente, no Júlia I, em Lisboa, o capitão Marcela, entre dois primos e amigos, o Eng. Aníbal Ventura da Cruz e Dr. Vítor Gomes, ainda estudante.

A bordo do Júlia I, em Lisboa…-

Na foto seguinte, para além dos dois citados anteriormente, à esquerda, à direita, vê-se Carlos Fernandes Parracho, pai do Sr. Capitão Aníbal Parracho.

A bordo do Júlia I, em Lisboa…
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Em 1936, chega a altura do comando do Milena. Capitão Marcela, imediato, Manuel Pereira Ramalheira e piloto, Mário dos Santos Redondo, mantiveram os mesmos postos entre 1936 e 1938 (inclusive). Foto seguinte.

Imediato, capitão e piloto, a navegarem, no Milena, em 1936

Na campanha de 1940, o nosso capitão comandou o lugre com motor Ilhavense II, tendo como imediato Manuel Pereira Teles.
Nas campanhas de 1940 e 41, o Milena não participou na pesca do bacalhau, tendo sido fretado para viagens de comércio para Itália, ao serviço da Cruz Vermelha Suíça.
Retoma a campanha de 1942 até 45 (inclusive) com o capitão Marcela no comando, tendo como imediato João Maria da Madalena (42 e 43) e João dos Santos Marnoto, em 1944.
Em alturas da Bênção, os ílhavos iam para Lisboa e a bordo dos navios, no Tejo, se alojavam, se possível.
Na imagem seguinte, um grupo de ilhavenses, possivelmente, na campanha de 1942, a bordo do Milena, a saber – capitão Marcela, imediato João Maria da Madalena e sua esposa, Maria do Gil, Senhora D. Raminhos e Capitão Cristiano, entre os quais, a senhora D. Ofélia, esposa do capitão Marcela. E a criança, quem diria? O João António Machado Marques, filho do capitão, com seis aninhos apenas. Que saborosas memórias…

A bordo do Milena, em Lisboa, na bênção de 1942
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Durante as campanhas de 1946 e 47, comandou o lugre com motor Trombetas, construído em Fão para a Lusitânia Companhia de Pesca, Lda. Este é um segundo Trombetas que houve, que, depois da viagem de 1948, acabou por ser desmantelado no Seixal.

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E assim passou da dura, famosa, mítica, mas anacrónica pesca à linha, para o arrasto lateral. Começou por ser imediato nas campanhas de 48 e 49 do arrastão clássico, de aço, João Álvares Fagundes, construído na CUF, em Lisboa, em 1945, para a Sociedade Nacional de Armadores de Bacalhau (SNAB), de Lisboa, sob o comando de João Simões Ré.
Nas campanhas de 1950 e 1951, passou a capitão do referido arrastão.
Na campanha de 1952, comandou o arrastão lateral São Gonçalinho, construído no Estaleiro Naval de Viana do Castelo, em 1948, para a Empresa de Pesca de Aveiro.
Nos anos de 1954, 55 e 56, exerceu o cargo de imediato do arrastão também lateral Comandante Tenreiro, construído nos Estaleiros Navais do Mondego em 1949, para a Lusitânia Companhia Portuguesa de Pesca da Figueira da Foz, sob o comando do Sr. José Augusto Paradela Senos.
Na campanha de 1957, mudou para o arrastão clássico Pádua, sob o comando do Sr. João Morais de Almeida, de Vila do Conde, construído em Aberdeen, Inglaterra, em 1947, para a Empresa Comercial e Industrial de Pesca de Lisboa.
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Durante mais uns anos, poucos, foi imediato do Dione, navio de cabotagem construído nos malogrados Estaleiros de S. Jacinto em 1951, sob o comando de João Maria da Madalena, que já havia sido seu imediato, nas campanhas de 1942 e 43, no Milena.
… E mais uma vida vivida praticamente no mar, longe dos familiares e amigos, tendo ajudado a engrandecer o passado recente da então vila maruja de Ílhavo.
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Fotografias - Arquivo pessoal e gentil cedência da Família do Capitão

Ílhavo, 29 de Junho de 2016
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Ana Maria Lopes
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segunda-feira, 11 de julho de 2016

Homens do Mar - Júlio Pereira da Bela - 12

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Piloto do Rio Lima, entre 40 e 42
Através do conhecimento de seu neto, Capitão Júlio Bela, chegaram-me às mãos algumas fotografias e informações que me despertaram a curiosidade de complementar o currículo biográfico marítimo de seu avô, por via materna.
O Capitão Júlio Pereira da Bela, de alcunha o Salsa, ilhavense de gema, nascido a 17.12.1899, aqui faleceu com 66 anos, em Agosto de 1966.
Francamente não o conheci ou não me recordo dele, mas o interesse despoletou, como já referi, por outra via...
Portador da cédula marítima nº 14349, passada em 1916 pela capitania de Aveiro, começou pelo comando de navios de longo curso, tem enveredado, seguidamente, pela pesca bacalhoeira.
A partir do momento em que consegui informações credíveis, «pesquei» que teria embarcado como piloto no lugre Santa Luzia, pertença da Empresa de Pesca de Viana, a partir de 1929, durante essa mesma campanha, sob o comando do ilhavense Cap. João Cajeira.

Lugre Santa Luzia

Por hiatos do jornal da nossa terra e porque as fichas do Grémio (GANPB), apenas registam informação a partir de 1936, foi piloto nessa campanha, do lugre Infante de Sagres III, sob o comando do Capitão José Vaz.
Pilotou também, na viagem de 1937 o lugre Labrador, ex-navio dinamarquês Lydia, construído em 1919, sob o comando de António Simões Picado, onde haveria de voltar em muitíssimas mais campanhas.
E a sua vida de piloto continuou entre 1940 e 1942, no Rio Lima, lugre de madeira da praça de Viana do Castelo, aí construído em 1920, por J. Pereira Maiato. Foi seu capitão José Bolais Mónica.
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A bordo (à esquerda), com um amigo. Sd.
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Intercalou o cargo de piloto a que venho referindo pelo de capitão, na viagem de 1938, no lugre de madeira Bretanha, levando como piloto José Fernandes Pata (o Gil). Tal viagem não se chegou a realizar, pois o Bretanha, a 3 de Junho de 1938 naufragou com água aberta, no Mar dos Açores, quando em viagem para a Terra Nova. Segundo o jornal O Ilhavense de 4 de Junho, mais um navio que se perde, pois apanhou um grande temporal que lhe abriu água. Os marinheiros ainda tentaram conduzir o lugre até ao Faial, mas, baldado o seu esforço, o barco soçobrou, sendo a tripulação salva por um vapor que a entregou ao conta-torpedeiro Dão.
As viagens de 1943 e 44, fê-las de capitão no lugre Labrador, onde retornaria por uma longa estadia.
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Lugre Labrador. Anos 40
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Intervalou a vida da pesca à linha com uma viagem de piloto no arrasto, ao estrear o arrastão da SNAB, construído nos estaleiros da CUF, em 1945, João Álvares Fagundes, comandado por João Nunes de Oliveira Sousa e com João Simões Ré como imediato.
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Em 1945, construídos a par na Gafanha da Nazaré por Manuel Maria Bolais Mónica, os navios-motor Elisabeth e António Coutinho, eis que o Júlio Pereira da Bela faz as campanhas de 1946 e de 47, como imediato, sob o comando do capitão António Simões Picado, no António Coutinho.

1945. A par, o Elisabeth e António Coutinho

Depois de assumir o comando do lugre de madeira San Jacinto, em 1948 (o Ex-Encarnação, construído em 1919, em Pardilhó, por Joaquim Dias Ministro, nesta altura, propriedade da Empresa de Pesca São Jacinto, Lda.), passou para o comando do lugre Labrador, desta vez, definitivamente, de 1949 até 1958, inclusive, ano do seu naufrágio.
Supostamente neste navio, deliciem-se com esta fotografia, com o material diverso de bordo todo peado e catrafiado, em que o Capitão Salsa, de gorro de lã, na sua indumentária apropriada, calçando ainda botas de cano, de couro e sola de madeira, de espingarda em punho, acabara de caçar um ror de pombaletes, que também serviam de isco para a pesca do bacalhau. 

Boa fotografia, supostamente a bordo do Labrador
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O «nosso» jornal de 1 de Setembro de 1958 noticia: Na Terra Nova, naufragou o lugre Labrador (25.8.1958), com água aberta. Já é o segundo navio que naufraga naquelas paragens. Oficiais e restante tripulação de 39 homens estão a salvo, a bordo de outros navios. Só que, neste ano de 1958, naufragaram cinco navios.
A campanha de 1959, fê-la, de capitão, no navio-motor António Coutinho, onde já fora imediato.
No final desta viagem, teve o azar de partir um pé, pelo que foi eliminado temporariamente por doença e readmitido em Junho de 1960.
Nas campanhas de 1961, 62, 63, 64 e 65, voltou ao mar como imediato, respectivamente dos navios-motor Avé Maria, Soto-Maior, Elisabeth, do lugre Hortense e do navio-motor Vila do Conde.
E assim se passou, duramente, mais uma vida de um dos nossos ílhavos, vivida no mar.
Isto é que eram Homens!,  que bem merecem ser lembrados. Trabalhou até 1965 e faleceu em 1966. Nem a merecida reforma chegou a gozar…
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Fotografias – Arquivo pessoal e gentil cedência da Família do Capitão
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Ílhavo, 21 de Junho de 2016
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Ana Maria Lopes
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quinta-feira, 23 de junho de 2016

Homens do Mar - João Fernandes Matias - 11

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Continuando pelas vizinhanças, lembrei-me de trazer a lume o Capitão João Matias, mais conhecido por João da Lúcia ou João da Madrinha, de quem bem me lembro. Tendo morado numa bonita casa, o nº 24 da minha rua, Rua Ferreira Gordo, passava frequentemente à minha casa. Tendo, noutro dia, de ir falar com o João Sílvio e com a Cilinha, seus filhos, já com uns aninhos, de que me lembrei?
De perguntar se tinham fotografias do Pai, sobretudo a bordo. A Cilinha foi-me buscar um álbum, que tinha de tudo, mas lá encontrei o Capitão João Matias, a bordo, em vários navios e situações identitárias. Voltei radiante… Mais trabalho, mas que valeria a pena.
Nascido em 16 de Abril de 1903, faleceu a 27 de Fevereiro de 1992, num acidente fatal ao atravessar a 109, com 88 anos. Terá zarpado para o mar desde cedo, como todos os seus contemporâneos, levado por familiar ou amigo, tendo obtido a cédula marítima em 23.7.1918, passada pela capitania de Aveiro.
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Começou a vida profissional como piloto no Nazaré, da praça de Aveiro, do comando de seu pai.
Entre 1934 e 1941, ocupou o cargo de piloto no lugre Gaspar, sob o comando do Sr. Manuel de Oliveira Mendes. De 1931 a 1933, o navio não foi à pesca, segundo Manuel de Oliveira Martins, autor do livro Viana e a Pesca do Bacalhau.
O lugre Gaspar era o ex-Sarah, de madeira, construído em 1919 na Figueira da Foz, por Manuel Bolais Mónica e adquirido para a campanha de 1921 pela empresa Novas Pescarias de Viana, Lda.

A bordo do lugre Gaspar com o Eng. Queiroz, seu armador. S/d.

Em 1942 e 43, ocupou o lugar de piloto, sob o comando do Cap. José Nunes de Oliveira, mais tarde capitão-chefe da SNAB, no arrastão de pesca lateral, Álvaro Martins Homem, pertencente à SNAB, construído em 1940, em Lisboa, nos estaleiros da CUF. Era imediato o Sr. Mário dos Santos Redondo, também de Ílhavo.

Em Massarelos, Porto, junto à ponte, alguns tripulantes do Álvaro Martins Homem
 
Já agora por curiosidade, o Álvaro Martins Homem e o João Corte Real foram navios gémeos e os dois primeiros arrastões construídos em Portugal.
O Álvaro Martins Homem só iniciou a sua actividade de pesca em 1943, porque o guincho de pesca não chegara a tempo. Dedicou-se, então, a viagens de comércio a carregar bacalhau.
Entre 1944 e 45, o nosso capitão João da Lúcia ocupou o lugar de imediato sob o comando do Cap. Manuel Pereira da Bela, no arrastão clássico, João Corte Real, pertencente à SNAB, gémeo do anterior, como já disse. Era piloto, em 1944, Emílio Carlos de Sousa e em 1945, Joaquim Carlos Caroço.

No João Corte Real, o capitão entre imediato (à direita) e piloto

Chega a campanha de 1946, em que foi imediato sob o comando de José Maria Vilarinho do lugre-motor Primeiro Navegante, construído na Gafanha da Nazaré, por Manuel Maria Bolais Mónica para a firma Ribaus & Vilarinho.
De uma certa faixa etária, quem não ouviu falar em tal espectacular naufrágio, à entrada da barra de Aveiro, a sul do Farol?
Curioso, há sempre um ponto a acrescentar a um conto, neste caso, pela boca de sua filha, de muito boa memória, nas suas 88 primaveras. O pai, João Fernandes Matias, tendo sido imediato na campanha do navio, na safra de 1946, assistiu ao naufrágio do «seu» navio, do paredão da Meia-Laranja. Afinal, como rezam as crónicas? Que se passou, então?
A 14 de Outubro, o Primeiro Navegante entrara em Leixões, para aliviar 3 000 quintais de peixe, tendo voltado a sair, para se fazer à nossa barra. Tinha o destino marcado. Não há que fugir. Entretanto, o Capitão José Maria Vilarinho tinha dito ao imediato, que viesse para Ílhavo, saudoso da família, que ele meteria o navio dentro. Não aconteceu bem assim.
No dia 24 do referido mês, perante um cais apinhado de gente para assistir ao sempre emocionante espectáculo da entrada, pairavam também, lá fora, o Lousado, o Navegante II, o Ilhavense II, o Santa Mafalda, o Maria das Flores, o António Ribau e o Viriato. Vinha o Maria das Flores, a entrar, rebocado pelo «Marialva», quando o «Vouga» lançou o cabo ao Primeiro Navegante, iniciando o caminho já percorrido com os outros navios. Em frente à Meia Laranja, alterosas e repetidas vagas conjugadas com violentas rajadas de vento, encheram todo o poço do navio, que desgovernou e tomou proa ao sul, sendo impelido para cima da coroa ali existente, apesar de todos os esforços dos rebocadores. Perante o perigo iminente que ele corria, os seus esforços também foram em vão.
Embora com dois ferros no fundo e o motor a trabalhar com toda a força, segundos depois, o Primeiro Navegante, batido pelo mar e pelo vento, varava na praia em frente ao nosso Farol.
Terá sido indescritível o momento de aflição e angústia, acorrendo ao local toda a gente, em altos gritos. Só quando houve a certeza de que a tripulação estaria salva, é que o ambiente serenou um pouco.
Durante as marés baixas, foram-se salvando os haveres, apetrechos e a carga possível. Até parece – quem sabe, sabe – que o motor foi reaproveitado para o Adélia Maria (seria segredo?).
Durante uns tempos, como hoje, sempre que soa a tragédia, a gente das redondezas acorreu, em romaria, para ver, «claramente visto», o que o mar consegue fazer.
Desta vez, vão aparecendo alguns testemunhos fotográficos reveladores e aquele donairoso lugre de quatro mastros foi servindo de repasto ao mar, que o desmantelou, destruiu e destroçou, acabando por o devorar na totalidade.

O Primeiro Navegante, naufragado, em 1946

E foi assim que o Capitão João Matias assistiu ao naufrágio do navio de que era imediato, da Meia-Laranja.
A propósito destas mais do que verídicas histórias dos nossos homens do mar, contaram-me.
O Capitão José Vilarinho, quando naufragou na barra de Aveiro, disse ao irmão João: – Se fosses tu a ter este naufrágio, eu matava-te. Teria sido verdade?
E continuando a longa história de João Matias, entrecortada por este episódio dramático, de que fora personagem integrante, nas campanhas de 1947 e 48, ascendeu a capitão do lugre Navegante II, da mesma empresa.
Nos anos de 1949, 50 e 51, comandou o grande Milena, lugre de madeira com motor.

No Milena, entre a filha e a Judite
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Nas safras de 1952 e 53, comandou o n/m de ferro Conceição Vilarinho, tendo como imediato, Gil Ferreira da Silva Júnior.
 
A bordo do n/m Conceição Vilarinho. Início de cinquenta
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Na safra de 1954, embarcou de imediato no n/m de ferro Capitão José Vilarinho, sob o comando de Augusto dos Santos Labrincha.
E a roda gira e, desta vez, na safra de 1955, embarcou como imediato no arrastão clássico António Pascoal, sob o comando de Manuel Pereira da Bela.
Chega o ano de 1956, onde capitão, com José Simões Amaro (o Forneiro) como imediato, naufragou a bordo do lugre com motor, Novos Mares, construído em 1938 por Manuel Maria Bolais Mónica. O jornal O Ilhavense de 1.8.1956 regista que, a 21 de Julho, perto de Virgin Rocks, se deu uma explosão na casa das máquinas que arrasou a popa do navio, que se afundou pouco depois. A tripulação de 56 homens foi salva pelo Maria das Flores sob o comando de Manuel de Oliveira Vidal.
E o tempo de mar já pesava, mas, ainda de 1957 a 1964 (inclusive), comandou o n/m Lutador, que conhecia, ao longe, de ginjeira, pela particularidade de ter sido o único n/m de três mastros. Nada bonito.
 
N/m Lutador, de 1945

Segundo o jornal da nossa terra de 1 de Outubro de 1964, na segunda-feira da festa da Barra, afundou-se o Lutador, com incêndio a bordo, comandado por João Fernandes Matias, com Belarmino de Ascensão Oliveira como imediato.
Foram salvas 82 vidas preciosas – os dois oficiais a bordo do Avé Maria e os restantes espalhados pelos restantes navios.
E o estado físico do «nosso» capitão ia suportando com mais dificuldade a vida salgada; mas, apesar disso, como noto que ia sendo hábito entre alguns oficiais (ainda hoje), retomou o cargo de imediato no Sernache, n/m de ferro, na campanha de 1967 e no Luiza Ribau, lugre de madeira, com motor, na campanha de 1972.
E por aqui acabou o percurso de João Fernandes Matias, onde sofreu as agruras do mar, numa carreira muito diversificada. Numa altura em que a famosa Frota Branca já tinha os dias contados.
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Fotografias – Arquivo pessoal e gentil cedência da Família do Capitão
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Ílhavo, 19 de Junho de 2016
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Ana Maria Lopes
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